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Pobres - Juvenal Galeno (Espírito)

Maurício Gringo

Letra

    Mal clareia o Sol a serra
    Toca a vida a despertar
    O pobre se pôs há muito
    Sem descanso, a labutar

    Ao levantar-se da cama
    Inda é espessa a escuridão
    A fome lhe bate à porta
    Persegue-lhe a precisão

    Ao acordar, ele escuta
    O coração a gritar
    Quem não trabuca não come
    Já chega de repousar!

    Busca, então, o seu trabalho
    Tudo ajeita, tudo faz
    Rasga a terra, corta os matos
    Luta e sua, não tem paz

    Planta o milho, planta a cana
    Batatas, couves, feijão
    Três quartas partes de tudo
    Pertencem ao seu patrão

    Quando a semente germina
    E os ramos querem crescer
    Vem a seca sem piedade
    E o pobre espera chover

    Não vem a chuva, porém
    Nada existe no paiol
    As plantas já se amarelam
    Arde a terra, queima o Sol

    Quando o pobre vai à mesa
    O estômago pede mais
    Mas se quer repetições
    Que cuide dos mandiocais

    Redobra o pobre os serviços
    Espalha o pé nos gerais
    Ah! que a água já está pouca
    Nos rios, nos seringais

    Contudo, ele espera sempre
    Do Deus que o ama, que o vê
    E sempre resignado
    O pobre nunca descrê

    O certo é que ao fim do tempo
    De constante batalhar
    Aguarda a minguada espiga
    Que decerto há de ficar

    Plenamente contentado
    Com o pouco do seu suor
    Deus lhe dará no outro ano
    Uma colheita melhor

    Se geme, se sofre dor
    Não possui um só real
    Pra consultar um doutor
    Então, resolve pedir
    Ao patrão que sempre o tem
    Mas o patrão avarento
    Não adianta vintém
    Arrasta-se e vai ao médico
    E lhe expõe o seu sofrer
    Não tem recomendações?
    Então não posso atender

    O pobre, humilde e paciente
    Regressa para o seu lar
    E pensa nos outros meios
    Da saúde lhe voltar

    E põe em prática os meios
    As beberagens, o chá
    As promessas aos seus santos
    Os vinhos de jatobá

    Ai! que sorte rude e amarga
    Do pobre sempre a sofrer
    Se vive para o trabalho
    Trabalha para comer

    Se a morte vem ao seu ninho
    E lhe rouba o filho, os pais
    Não lhes pode dar a missa
    Que o padre cobra demais

    Dá-lhes porém seu tesouro
    Sublime estrela que brilha
    Da mais rica devoção –
    A prece que nasce d'alma
    Que fulge no coração

    Mesmo assim, quanta tortura
    Que amargosa a sua dor!
    A todo o instante da vida
    Luta o pobre sofredor

    Se tem pão não tem saúde
    Se tem saúde, não tem
    Quem o ampare, quem o ajude
    O braço amigo de alguém

    Se outrem lhe ofende e ele pede
    Da Justiça a punição
    A Justiça o encarcera
    Com a sua reprovação

    Não tem casas de morada
    Nem terrenos, nem ovil
    Se lhe falta o pão do dia
    Falta azeite no candil

    Se bate à porta do rico
    Mormente dum rico mau
    Os cães o tocam da porta
    E em vez de pão, ganha pau

    O pobre só tem na vida
    A doce mão de Jesus
    Que o cura na enfermidade
    Que na treva lhe dá luz

    Mal do pobre se não fora
    O carinho dessa mão
    Que o conforta na desgraça
    E ampara na provação

    Mal dele se não houvesse
    A vida depois da dor
    Após a morte, onde existem
    Justiça, ventura, amor


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