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Terra Sem Lei

MC Ranfo

Com dezessete anos eu saí sem direção
Saí de casa cedo pra enfrentar o mundão
Já pedi comida, já dormi na calçada
Banco frio de praça, alma abandonada

Já acordei perdido sem saber como cheguei
Metrópole é perigo, e eu sobrevivi, eu sei
Recife, São Paulo, Rio de Janeiro
Belém, Macapá, Oiapoque por dinheiro

Pará, Ceará, estrada sem perdão
Pra onde mais, meu Deus? Só carregando o coração
Cada cidade um risco, cada passo uma lição
Quem anda sem destino aprende na pressão

Não era aventura, era fome e decisão
Quando tudo te falta, sobra só a intenção

Eu fui longe demais pra voltar igual
Vi o bem e o mal no mesmo quintal
Se a vida cobra caro, eu paguei em vão
Mas ainda tô vivo, voltei de mãos vazias, não

Não tem herói nessa canção
Só um homem fugindo da perdição
Entre ouro e caixão
Eu escolhi continuar, de mãos vazias então

Deportado com cinco quilos dentro da sacola
Guiana Francesa não perdoa, só te joga fora
No Brasil de volta com o corpo cansado
Eu tava no garimpo, esquecido, isolado

Dormia em rede no topo da árvore
Pra não ser pego pelos guardas, pelos gendarmes
Cada dia uma fuga, cada noite um temor
Cada pepita valia mais do que amor

Terra sem lei, ninguém era irmão
Cão sem dono, sem palavra, sem perdão
Seu melhor amigo vira seu algoz
Te tira a vida e o ouro, não sobra voz

Ali eu aprendi o preço da ambição
Nem todo brilho leva à salvação

Eu fui longe demais pra voltar igual
Vi o bem e o mal no mesmo quintal
Se a vida cobra caro, eu paguei em vão
Mas ainda tô vivo, voltei de mãos vazias, não

Entre a ganância e o fim
Eu escolhi sair dali
Não foi covardia, foi visão
Porque ouro nenhum vale mais que o coração

Consegui sair, mas enterrei o que construí
Pra sair vivo dali, eu tive que desistir
Ou saia vazio ou não saia de pé
Eu não era sábio, mas escolhi viver

Sabedoria às vezes é saber largar
Nem toda vitória é continuar
Perder tudo pra poder respirar
É coragem que poucos vão entender e aceitar

De volta aos palcos brasileiros eu aprendi
Que a vida não é plateia esperando aplauso pra mim
Não tem cortina, nem luz pra anunciar
A vida é espaço e você tem que ocupar

Cada cicatriz virou voz e canção
Cada queda virou base pro chão
Não canto luxo, nem ilusão
Eu canto estrada, suor e redenção

Utimurêvidirmã
Eu fui longe demais pra voltar igual
Mas não perdi minha alma no final
Se o mundo me quis duro, eu disse não
Ainda tô de pé, de mãos vazias, irmão

Se hoje eu canto, é pra lembrar
Que sobreviver também é ganhar
Nem todo ouro brilha igual
Mas a vida, essa sim, não tem igual


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