Novo Sozinho

Miguel Cirillo

Sete da manhã, o despertador
Odeio o som, mas hoje odeio mais
O teu lado da cama está frio, vazio
Dos teus cheiros, restam só sinais

Levanto-me e vou à casa de banho
A tua escova de dentes ainda lá está
Ao lado da minha, parece um insulto
A lembrar-me que já não vens cá

Abro o frigorífico, só para o fechar
Fazer torradas só para um, não sabe igual
Tudo o que eu faço é automático
Mas falta-me o teu bom dia habitual

Eu sou um novo sozinho, a tentar perceber
Como é que a rotina consegue doer
É o teu champô no duche, que eu não deito fora
É olhar o telemóvel à espera, a toda a hora
Eu sou um novo sozinho, e o que me custa mais
São estes detalhes tão banais
É o espaço a mais que tenho no sofá
É o silêncio que grita que tu não estás

Saio de casa, entro no carro, ponho o cinto
A rádio toca aquela que tu gostavas
Aumento o som, tento não pensar
Nas vezes que a cantavas (e desafinavas)

Passo no supermercado ao fim do dia
E quase compro o teu iogurte
Dou por mim a meio do corredor
É um soco no estômago que nem aguento

Chego a casa, não há luz acesa
Não há ninguém para me perguntar como correu?
Aquilo a que eu chamava espaço
É só um vazio que agora é meu

Eu sou um novo sozinho, a tentar perceber
Como é que a rotina consegue doer
É o teu champô no duche, que eu não deito fora
É olhar o telemóvel à espera, a toda a hora
Eu sou um novo sozinho, e o que me custa mais
São estes detalhes tão banais
É o espaço a mais que tenho no sofá
É o silêncio que grita que tu não estás

Quem me dera voltar atrás
Ao nosso último jantar
Eu queixava-me do trabalho
E tu rias sem parar
Era o banal, o nosso dia-a-dia
Era a desarrumação da tua roupa no chão
Mal eu sabia
Que isso era a minha perfeição

Eu sou um novo sozinho, a tentar perceber
(Como é que a rotina consegue doer)
É o teu champô no duche, que eu não deito fora
É olhar o telemóvel à espera, a toda a hora
Eu sou um novo sozinho, e o que me custa mais
São estes detalhes tão banais
É o espaço a mais que tenho no sofá
É o silêncio que grita que tu não estás

São as tuas chaves que já não estão na entrada
É o meu novo sozinho
E não me sabe a nada


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