
Quarto 402
Miguel Cirillo
Eram duas da manhã na Rua da Rosa
O frio de Março batia no rosto, sem pressa
Cruzei-me contigo, estavas tão calada
A ajustar o casaco, fugindo à promessa
Olhaste para mim e o tempo parou no passeio
Não houve olá, nem está tudo bem?
O teu olhar trazia aquele velho receio
De quem quer fugir, mas não tem para onde ir ou tem?
Pediste um cigarro, eu dei-te a mão
Disseste: O que é que fazes por aqui?
Subimos a escada de um prédio em ruína
Onde a chave do Range Rover não entra, eu vi
E acabámos depois no Quarto 402
Numa pensão barata com vista para o Tejo
Esquecemos o antes e o que vem depois
Matámos a sede num único beijo
Disseste que o teu noivo estava à tua espera
Que o jantar de empresa já tinha acabado
Mas naquela cama, a tua voz de fera
Dizia que o resto era tempo passado
O telemóvel vibrava em cima da mesa
Um nome gravado que eu preferi não ler
Tinhas no rosto uma certa tristeza
Mas nos teus braços, deixaste-me vencer
A luz do candeeiro era fraca e amarela
O barulho do elétrico ouvia-se ao fundo
Ficaste a olhar, pensativa, à janela
Como se quisesses parar este mundo
E acabámos depois no Quarto 402
Numa pensão barata com vista para o Tejo
Esquecemos o antes e o que vem depois
Matámos a sede num único beijo
Saíste primeiro, sem olhar pra trás
Deixaste o perfume e o quarto vazio
E eu fiquei lá, como um rapaz
A ver-te desaparecer na névoa do rio




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