
Samuel 1
Ministério Salva-me
Ela entrava no templo como quem entra no fundo do poço
Os olhos vermelhos, a alma em frangalhos, no peito um desgosto
Penina tinha filhos e risos, Ana tinha lágrimas e silêncios indecisos
Cada ano a mesma subida, cada ano a mesma ferida que o tempo não curou
A mesa da festa era um trono de espinhos
Enquanto Penina provocava em todos os caminhos
O Senhor te fechou o ventre, dizia a voz cruel
E Ana engolia o fel e voltava ao seu quarto de mel
Não por doçura, mas por falta de forças pra lutar
Quem tá vazio demais não consegue nem brigar
Mas ela derramou a alma diante do Senhor
E o semblante já mudou, já mudou
Não esperou o milagre pra poder sorrir
A fé é a certeza do que ainda há de vir
O rosto que chora e depois se alegra
É o rosto que aprendeu que a graça é mais que a regra
Semblante mudou, mudou, mudou
O amor de Deus chegou e transformou
Um ano a dor chegou ao limite
Ana não comeu, não bebeu, não permitiu que a alma se omitisse
Levantou-se do banquete, foi ao santuário
Onde o sacerdote velho guardava o mistério e o salário
Diante da Arca, ela derramou sua alma
Não era oração bonita, era um parto de madrugadas
Os lábios se moviam, mas não se ouvia a voz
Porque há dores que só o coração diz após
Eli a viu e pensou: Está bêbada
Mas Ana respondeu: Não, senhor, sou mulher atribulada
Elí então a abençoou: Vai em paz, que Deus te atenda
E ali, naquele instante, a filosofia se emenda
A palavra de um homem de Deus, ainda que imperfeito
Pode ser o gatilho que liberta o peito
Ana não viu o filho, não sentiu a vida em seu ventre
Mas seu semblante já não era o mesmo, era outro, era rente
Ela comeu, bebeu, e já não estava triste
Porque a fé não espera o resultado, ela já existe
Ela fez um voto, o mais profundo
Senhor, se me deres um filho varão
Eu o devolverei a Ti por todos os dias do mundo
Não era barganha, era consagração
Ana sabia: O menino seria do Senhor
Ela só seria a vasilha, o canal, a flor
E nessa entrega, a esterilidade se quebrou
Não porque Deus precisava de Samuel, mas porque Ana O adorou
Ela derramou a alma diante do Senhor
E o semblante já mudou, já mudou
Não esperou o milagre pra poder sorrir
A fé é a certeza do que ainda há de vir
O rosto que chora e depois se alegra
É o rosto que aprendeu que a graça é mais que a regra
Semblante mudou, mudou, mudou
O amor de Deus chegou e transformou
Eis a lição que o capítulo primeiro nos lega
A dor não é o fim, é o parto que nos entrega
Ana foi humilhada, mas não se humilhou
Foi provocada, mas não provocou
Ela guardou o silêncio, mas não o rancor
Derramou o pranto, mas não o temor
Quando Samuel nasceu, Ana deu-lhe o nome
Que significa ouvido por Deus, e essa é a fama
Não é sobre a criança, é sobre a história
Deus ouviu o grito que vinha da memória
Ela cantou depois um cântico de louvor
Mas o primeiro milagre foi o semblante interior
Porque o rosto que chora e depois se alegra
É o rosto que aprendeu, que a graça, é mais, que a regra



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