Pálido Soluço

NeonBit

Palmas secas na madeira, corda roncando devagar
Rádio velho na cozinha cospe o mesmo velho altar
Noticiário revirando o mesmo sangue, o mesmo chão
E eu tocando essa batida pra espantar contradição

Pálido soluço preso na garganta da cidade
Ninguém reclama alto, todo mundo tem metade
Meia-fé, meio-salário, meio-sono mal dormido
Meio riso engolido pra não ser mal-entendido

E o chefe diz: É crise, é assim mesmo, se acostume
Enquanto aumenta o muro, o carro, o vinho, o perfume
Na TV um pastor grita que a culpa é do vizinho
E o pobre aplaude em pé, segurando o próprio espinho

Eu vejo a placa de silêncio pendurada no sinal
Mas o barulho dessa farsa já virou normal

Pálido soluço, grito que não sai do peito
Eu canto baixo esse protesto imperfeito
Não é discurso, nem bandeira de jornal
É só um rock sussurrado contra o mal
Se não me ouvem, eu insisto, desafino
Até trincar esse sorriso de vitrine no destino

Vem polícia, vem decreto, vem programa assistencial
Tapa-buraco em consciência, maquiagem social
Selfie em obra inacabada, fita colorida e luz
Enquanto a esquina segue escura, corpo cai e ninguém reluz

Tem influencer vendendo revolução em doze vezes
Com frete grátis pra quem aceita as mesmas redes
E a escola vai murchando no calor do gabinete
Livro velho, teto em goteira, quadro novo no tapete

Na calçada o camelô sabe mais que o comentarista
Mas ninguém dá microfone pra quem vive a própria lista

Pálido soluço, grito que não sai do peito
Eu canto baixo esse protesto imperfeito
Não é discurso, nem bandeira de jornal
É só um rock sussurrado contra o mal
Se não me ouvem, eu insisto, desafino
Até trincar esse sorriso de vitrine no destino

Se eu berrar, viram manchete, me prendem no vocabulário
Vândalo, louco, radical, caso contrário
Então eu troco o megafone por dedilhado em ré menor
Mas cada nota é um tijolo jogado no calor

Vai acumulando no silêncio, nesse chão de pó e tédio
Uma faísca, um olhar torto, um pequeno desobédio
E quando a corda arrebentar no meio dessa canção
Talvez o bairro inteiro acorde em plena combustão

Pálido soluço, grito que já racha o peito
Esse sussurro desafinado é meu direito
Não é roteiro de herói nacional
É só um rock insistindo em ser real
Se não me ouvem, eu respiro e não me rendo
Porque até calado meu acorde segue acendendo

Cordas gastas, mão ferida, mas eu sigo o compasso
Deixo a última pancada ecoar pelo terraço
No silêncio após o som, no intervalo do sinal
Meu soluço pálido assombra o fundo do normal


Comentários

Envie dúvidas, explicações e curiosidades sobre a letra

0 / 500

Faça parte  dessa comunidade 

Tire dúvidas sobre idiomas, interaja com outros fãs de NeonBit e vá além da letra da música.

Conheça o Letras Academy

Enviar para a central de dúvidas?

Dúvidas enviadas podem receber respostas de professores e alunos da plataforma.

Fixe este conteúdo com a aula:

0 / 500

Opções de seleção