exibições de letras 16

Diário de um Detetive Particular

Nícolas Wolaniuk

Letra

    Sete de julho dizia o jornal
    Hoje encontraram no trem madrugueiro
    O corpo de um jornalista local
    Depois de amanhã já farão seu enterro
    Mais tarde registro o que eu sei dos fatos
    Existe a suspeita de assassinato

    Hoje voltou a cliente do trem
    Isso era a entrada de oito de julho
    Disse que estava seguida de alguém
    E antes de ir, segredou num sussurro
    Cuidado, ele manca pro lado esquerdo
    Não disse seu nome, pagou em dinheiro

    Nove de julho estava escrito
    Hoje começo no caso de quinta
    No enterro apenas uns poucos amigos
    Foi quando eu vi espiando da esquina
    Chapéu sobretudo e um homem por trás
    Saiu, coxeava, então eu fui atrás

    O homem andou por vielas escuras
    Assim descrevia aquele caderno
    E quase perdi seu trajeto na bruma
    Quando ele virou para uma taberna
    Sentou numa na mesa de todo sozinho
    Sentei esperei acendi meu cachimbo

    Fiquei atento espiando de esguelha
    Mas no único instante de algum devaneio
    Estava vazia a sua cadeira
    E na minha mesa não sei de onde veio
    Apareceu uma nota que lia
    Você se meteu com quem não devia

    Na volta de casa temi cada sombra
    O décimo dia de julho narrava
    E numa mensagem da caixa eletrônica
    Me avisou a cliente palavra a palavra
    Eu vou acabar como ele do trem
    Crivada de bala não sabem por quem

    Onze de julho saiu nos jornais
    Hoje com tiros no carro de carga
    Assim como o homem três dias atrás
    Uma mulher foi executada
    Nem precisei assistir as notícias
    Pra descobrir quem fora a vítima

    Mas então dentro daquele diário
    Havia num sujo envelope uma carta
    Sem remetente e com selo ordinário
    Entre as folhas dos dias seguintes guardada
    Abri o envelope de selo rompido
    E linha por linha eu li manuscrito

    Não quis te envolver nessa história sinistra
    Tem tanto disso que eu não entendia
    Ele escrevia a coluna política
    Eu só lhe contei o que eu pouco sabia
    De nada adianta esgueirar esconder
    Eles sabem seus passos mesmo antes que os dê

    Agora que lês eu já devo estar morta
    Tudo que houve não vale dizer
    Mas dessa história só isso te importa
    A única coisa que tens que saber
    Nós dois cometemos um único erro
    Mexer com quem mexe com muito dinheiro

    Vou escrever pra ficar acordado
    Doze de julho o diário reporta
    A última linha só tem registrado
    Com a faca na mão eu vigio a porta
    Treze de julho o relato acaba
    Manchado de sangue e furado de bala


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