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Recuerdos de Tapejara

Noel Guarany

LetraSignificado

    Já nem sei porque é que Deus
    Tanto ao herege e ao fiel
    Nos manda um frio tão cruel
    Vento e neve em redoblona

    E a perna velha quebrada
    E esta costela emendada
    Se param assim delicadas
    Do que tecla de cordeona

    Oigalê frio desgranido
    O sangue é lenha sem brasa
    Cochincho sem quente na asa
    O coração mal vai indo

    E do fundo da memória
    Vai brotando cada história
    De um tempo que já foi lindo

    Junto do foguito mixe
    Do galpãozito aventado
    A outra vida, a do passado
    Vem surgindo na distância

    A que não é esta de hoje
    A que aparece tão longe
    Como num fundo de estância

    Entonce, empeço a lembrar
    Aqueles trastes que eu tive
    Adaga, punho de ourives
    Para passear à mão salva

    E um nagão, berro de touro
    E um relógio, casca de ouro
    Mais certo que a estrela d’alva

    E as minhas chilenas de aço
    Com bordados na roseta
    Que da virilha à paleta
    Sabiam onde cortar!
    E, em sala de queijo em cincho
    No sapatear de um bochincho
    Lembravam sino a cantar

    Madrugadistas voltando
    De dar pasto ao coração
    Pra cuidar da obrigação
    Depois de um grande domingo

    E cada chilena de aço
    Marcava o claro compasso
    Das quatro patas do pingo

    Meu pala, flor de vicunha
    Quando em carreira o vestia
    Bandeira de ventania
    Me arrastava de barbela

    E um dia olhando com zelo
    Achei uns fios de cabelo
    Na franja atados por ela

    Meu tirador, puro pardo
    Com flexos nos cabrestilhos
    A badana e os cochonilhos
    Ele tapava, de largo
    Com ele bem me sentia
    Quando a trigueira trazia
    Aquelas cuias de amargo

    Meu laço de quinze braças
    Com trança do André da Corda
    Quanta gauchada recorda
    Quando a memória me escalda
    Desde o pealo em cornilhudo
    Até o zebu capinudo
    Laçado na meia espalda

    E as boleadeiras, no ar claro
    Imitavam o cruzeiro
    Quando ele se abre folheiro
    Com as estrelas querendonas

    Prolongavam o meu braço
    Escolhendo um, de um sogaço
    Nas bagualadas gavionas

    E os meus aperos de argola
    De um porte um pouco grandote
    Podia sentar em chote
    No palanque um bagualão

    Me mirou muito índio feio
    Quando me viu num rodeio
    Com aquelas rédeas na mão

    Pingos que eu tive! Nem falo
    Mouro ou zaino ou pangaré
    Até prefiro andar de a pé
    Se como eles não se encontra
    Dava até horror e gosto
    Sentir o vento no rosto
    Correndo no meu bilontra

    E as moças daqueles tempos
    E mais não digo e me calo
    Do espinilho em capão-ralo
    Quanta antiga devoção
    Canchas, bailes e ajutórios
    Parei! Tenho algo nos olhos
    E um cerro no coração!


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