Le chant du désert
Dans le désert du papier
Dans le désert du papier blanc
Mes vieux chameaux de mots naviguent
Croisant parfois les ossements
D'un poème mort de fatigue
J'ai soif
Bédouin brûlé par l'aveuglant
Néon d'un néant, sèche douche
Je marche, marche, m'ensablant
Un bâillon d'encre sur la bouche
J'ai soif
Il est des bouches oasis
Tout enchantées de phrases fraîches
La mienne suce le supplice
D'une langue qui se dessèche
Pourquoi me suis-je, ah là là
Aventuré parmi ces dunes?
Croyais j'y rencontrer Allah
Son burnous en bure de Lune?
Il m'aurait dit: Ta soif me plaît
Voici ma gourde d'eau mentale
Alors j'eusse bu les couplets
D'une chanson fondamentale
Une chanson à l'infini
D'un souffle neuf brisant ces noces
Qui nous font naître dans un nid
Halluciné de becs féroces
Une chanson puisée ailleurs
Qu'à la litanie de nos plaintes
Mêlée aux hymnes fossoyeurs
Dans le poumon des guerres saintes
Une chanson calmant la soif
De nos soifs enfin inondées
Oui qu'une pluie enfin nous coiffe
D'une chevelure d'idées
Idées dictées pour en sortir
De nos mariages et leurs divorces
De nos bourreaux et leurs martyrs
De nos contrats et leurs entorses
De nos salam, salamalecs
Au sommet sec de nos puissances
Quand nos enfants claquent du bec
Dans la patrie de l'innocence
J'ai soif, soif
Et me voici là devant vous
Frères humains, but de ma course
Les doigts tendus comme des trous
Vers la lumière d'une source
J'ai soif
Source, chant source
Jaillis, jaillis, jaillis
O Canto do Deserto
No deserto de papel
No deserto de papel branco
Meus velhos camelos de palavras navegam
Cruza às vezes os ossos
De um poema morto de cansaço
Estou com sede
Beduíno queimado pelo ofuscante
Neon de um nada, ducha seca
Eu ando, ando, me enterrando
Um mordaça de tinta na boca
Estou com sede
Existem bocas oásis
Todas encantadas com frases frescas
A minha suga o suplício
De uma língua que se resseca
Por que me aventurei, ah lá lá
Entre essas dunas?
Acreditava que encontraria Alá
Seu burnous em bure de Lua?
Ele teria me dito: Sua sede me agrada
Aqui está minha garrafinha de água mental
Então eu teria bebido os versos
De uma canção fundamental
Uma canção sem fim
De um sopro novo quebrando essas núpcias
Que nos fazem nascer em um ninho
Alucinado de bicos ferozes
Uma canção tirada de outro lugar
Que da ladainha das nossas queixas
Misturada aos hinos coveiros
No pulmão das guerras santas
Uma canção acalmando a sede
De nossas sedes finalmente inundadas
Sim, que uma chuva finalmente nos cubra
Com uma cabeleira de ideias
Ideias ditadas para sairmos
Dos nossos casamentos e seus divórcios
Dos nossos algozes e seus mártires
Dos nossos contratos e suas quebras
Dos nossos salam, salamalecs
No cume seco de nossos poderes
Quando nossos filhos estalam o bico
Na pátria da inocência
Estou com sede, sede
E aqui estou diante de vocês
Irmãos humanos, alvo da minha corrida
Os dedos estendidos como buracos
Em direção à luz de uma fonte
Estou com sede
Fonte, canto fonte
Jorra, jorra, jorra