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A Morte de Óculos

Violeta Parra

La Muerte Con Anteojos

Todas las noches conmigo
Se acuesta a dormir un muerto
Aunque esté vivo y despierto;
Confuso es lo que les digo,
Que es una mortaja, amigo,
Que se alimenta de hinojo,
Después se lava los ojos
Pa' reposar en la tumba
Y a mi lado se derrumba
Este finado de anteojos.

Se arrancó del cementerio
Con una corona puesta;
Una mujer deshonesta
Le hizo perder el criterio,
Esto pa' naide' es misterio,
Lo digo con amargura
Aunque yo tenga buenura,
Al muerto poco le importa
Y como esta vida es corta
Anda con tanta locura.

De qué le sirve el consuelo,
Tal esqueleto es la muerte;
De qué me sirve la suerte
Si me da tanto desvelo,
Me está causando recelo,
El frío lo tiene mudo
Pero a su llamado acudo
Porque así será el destino
Este finado ladino
Quiso ser mío y no pudo.

Debo de ser muy fatal
Pa' venir de san clemente
A probar inútilmente
Lo amargo de este panal;
Es poca toda la sal
Que hay en la pampa de chile
Pa' curarle las cien miles
Angustias que le dejaron
Coquetas que lo humillaron
Dejándolo sin abriles.

Por fin, amables oyentes,
Les pido con devoción:
Recemos una oración
Por este muerto viviente,
Es finado inteligente
Por eso es que yo lo estimo,
A su muerte yo me arrimo
Con esperanza y con fe
Pero qué hacer yo no sé,
Y si lo sé no me animo.

A Morte de Óculos

Todas as noites comigo
Um morto se deita pra dormir
Mesmo que esteja vivo e acordado;
Confuso é o que eu digo,
Que é um lençol, amigo,
Que se alimenta de erva-doce,
Depois se lava os olhos
Pra descansar na cova
E ao meu lado desmorona
Esse finado de óculos.

Ele saiu do cemitério
Com uma coroa na cabeça;
Uma mulher desonesta
Fez ele perder o juízo,
Isso não é mistério,
Eu digo com amargura
Mesmo que eu tenha ternura,
Pro morto pouco importa
E como essa vida é curta
Anda com tanta loucura.

De que adianta o consolo,
Tal esqueleto é a morte;
De que me serve a sorte
Se me dá tanto desvelo,
Me causa tanto receio,
O frio o deixou mudo
Mas ao seu chamado eu vou
Porque assim será o destino
Esse finado ladino
Quis ser meu e não conseguiu.

Devo ser muito fatal
Pra vir de São Clemente
Tentar inutilmente
O amargo desse mel;
É pouca toda a sal
Que tem na pampa do Chile
Pra curar as cem mil
Angústias que deixaram
As coquetes que o humilharam
Deixando-o sem primaveras.

Por fim, amáveis ouvintes,
Peço com devoção:
Vamos fazer uma oração
Por esse morto-vivo,
É um finado inteligente
Por isso eu o estimo,
À sua morte eu me aproximo
Com esperança e fé
Mas o que fazer eu não sei,
E se eu souber, não me animo.

Composição: Violeta Parra