Escrito En El Trigo
Te peinas de mañana ante el espejo,
Sacudes las espigas de tu cara,
Cimbras tu paso haciéndote trigal,
Comes los granos dulces
Peleas con los pájaros,
Bebes lluvia del cielo.
Puse un día en tus pechos mis dos manos,
Doblé tu cuello con un beso fértil,
Aré en tu vientre hasta sembrar el hijo,
Y el trigo nos miraba,
Ondeando sus señales
Su melena de cobre.
¿te das cuenta que nada es tan oscuro
Como una vida en la que no hay trigales?
¿te das cuenta que el mundo queda ciego
Si apagas las espigas rumorosas?
¿te das cuenta que el hombre es una espiga?
¿que toda espiga se convierte en hombre?
¿y que por siglos combatimos muchos
Para que nadie sea dueño nunca
Del trigo, pan y padre
Que es de todos?
El trigo va moliéndose en tu sangre,
Se transforma en harina silenciosa,
Se resuelve en el pan de cada día,
Va directo hacia el hombre
Dormido en tus caderas
Que parirás mañana.
Ya ves que todo es trigo, dulce mía:
Trigo cuando me miras y sonríes,
Trigo cuando sollozas y desgarras,
Trigo cuando te duermes,
Trigo cuando despiertas,
Trigo cuando susurras.
Por aquel que descubrió en ti su gruta,
Por aquel que arderá entre las manzanas,
Por aquel que abrirá un río en tu pecho,
Echamos las semillas luminosas;
Por aquel inventamos los trigales,
Enderezamos las cosechas turbias.
Somos vigías de la tierra entera
Para que nadie sea dueño nunca
Del trigo, pan y padre
Que es de todos.
Escrito No Trigo
Você se arruma de manhã diante do espelho,
Sacode as espigas do seu rosto,
Caminha com graça como um trigal,
Come os grãos doces
Briga com os pássaros,
Bebe a chuva do céu.
Um dia coloquei minhas duas mãos em seus seios,
Inclinei seu pescoço com um beijo fértil,
Arrei seu ventre até semear o filho,
E o trigo nos observava,
Balançando suas mensagens
Sua juba de cobre.
Você percebe que nada é tão escuro
Como uma vida sem trigais?
Você percebe que o mundo fica cego
Se apaga as espigas barulhentas?
Você percebe que o homem é uma espiga?
Que toda espiga se torna homem?
E que por séculos lutamos muito
Para que ninguém seja dono nunca
Do trigo, pão e pai
Que é de todos?
O trigo vai se moendo em seu sangue,
Se transforma em farinha silenciosa,
Se resolve no pão de cada dia,
Vai direto para o homem
Adormecido em seus quadris
Que você dará à luz amanhã.
Já vê que tudo é trigo, minha doce:
Trigo quando me olha e sorri,
Trigo quando soluça e se despedaça,
Trigo quando você dorme,
Trigo quando acorda,
Trigo quando sussurra.
Por aquele que descobriu em você sua gruta,
Por aquele que arderá entre as maçãs,
Por aquele que abrirá um rio em seu peito,
Jogamos as sementes luminosas;
Por aquele inventamos os trigais,
Endireitamos as colheitas turvas.
Somos vigias da terra inteira
Para que ninguém seja dono nunca
Do trigo, pão e pai
Que é de todos.
Composição: Patricio Manns, Desiderio Arenas