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Bochincho

Paullo Costa

Letra

    A um bochincho certa feita
    Fui chegando por curioso
    Que o vicio é que nem sarnoso
    Nunca para nem se ajeita
    Baile de gente direita
    Vi de pronto que não era
    Na noite de primavera
    Gaguejava a voz de um tango
    E eu sou louco por fandango
    Que nem pinto por quirera
    Atei meu zaino longito
    Num galho de guamirim
    Desde guri sou assim
    Não brinco, nem facilito
    Em bruxas não acredito
    Pero que las hay, las hay

    Sou da costa do Uruguai
    Meu velho pago querido
    E por andar desprevenido
    Há tanto guri sem pai
    Num rancho de santa fé
    De pau a pique e barreado
    Num trancão de convidado
    Me entreverei no banzé
    Chinaredo a bola pé
    O ambiente fumacento

    E um candeeiro bem no centro
    Num lusco-fusco de aurora
    Pra quem chegava de fora
    Pouco enxergava ali dentro
    Dei de mão numa changaça
    Que me cruzou no costado
    Já saímos entreverados
    Entre a poeira e a fumaça
    Oigalê china lindaça
    Morena e de toda a crina
    Dessas da venta brazina
    Com cheiro de lechiguana
    Que quando ergue uma pestana
    Até a noite se ilumina

    Misto de diaba e de santa
    Com ares de quem é dona
    E um gosto de temporona
    Que traz agua na garganta
    E eu me grudei na percanta
    O mesmo que um carrapato
    E o gaiteiro era um mulato
    Que até dormindo tocava
    E a gaita choramingava
    Como um namoro de gato

    A gaita velha gemia
    As vezes quase parava
    De repente se acordava
    E num vaneirão se perdia
    E eu contra a pele macia
    Daquele corpo moreno
    Sentia o mundo pequeno
    Bombeando o cheiro de enlevo
    Dois olhos flores de trevo
    Com respingos de sereno
    Mais o que é bom se termina
    Cumpriu-se o velho ditado
    Eu que dançava embalado
    Nos braços doces da china

    Escutei de relancina
    Uma espécie de relincho
    Era o dono do bochincho
    Meio oitavado num canto
    Que me olhava com espanto
    Mais sério que um capincho
    E foi ele que se veio
    Pois era dele a pinguancha
    Bufando e abrindo cancha
    Como o dono do rodeio
    Quis me partir pelo meio

    Num talonaço de adaga
    Que se me pega me estraga
    Chegou a levantar um cisco
    Mas não é atoa chomisco
    Que sou de são Luiz Gonzaga
    Meio na volta do braço
    Consegui tirar o talho
    Quase que me atrapalho
    Por que havia pouco espaço
    Mas senti o calor do aço
    E o calor do aço arde
    Me alevantei sem alarde
    Por causa do desaforo
    E soltei meu marca touro
    Em um medonho buenas tarde

    Tenho visto coisa feia
    Tenho visto judiaria
    Mais ainda hoje me arrepia
    Lembrar aquela peleia
    Talvez quem ouça não creia
    Mais vi brotar no pescoço
    Do índio do berro grosso
    Como uma cinta vermelha
    Que desde o beiço
    Até a orelha ficou relampeando o osso

    O índio era um índio touro
    Mais até touro se ajoelha
    Cortado do beiço a orelha
    Amontou-se como um couro
    E aquilo foi um estouro
    Daqueles que dava medo
    Espantou-se o chinaredo
    E amigos foi uma zuada
    Parecia até uma eguada
    Disparando num varzedo
    Não há quem pinte o retrato
    De um bochincho quando estoura

    Tinidos de adaga e espora
    E gritos de desacato
    Berros de quarenta e quatro
    De cada canto da sala
    E a velha gaita baguala
    Num vaneirão pacholento
    Fazendo acompanhamento
    Num turumbamba de bala
    É china que se escabela
    Redemoinhando na porta
    E xiru da guampa torta

    Que vem direito a janela
    Gritando de toda a goela
    Num berreiro alucinante
    Índio que não se garante
    Vendo o sangue se apavora
    E se manda campo a fora
    Levando tudo por diante
    Sou crente na divindade
    Morro quando D'us quiser
    Mas amigos se eu disser
    Até periga verdade
    Naquela barbaridade
    De chinaredo fugindo
    De grito e bala zunindo
    E o gaiteiro alheio a tudo
    Tocava um xote clinudo
    Já quase meio dormindo

    E a cosa ia indo assim
    Balanceei a situação
    Já quase sem munição
    E todos atirando em mim
    Parecia ser o meu fim
    Me dei conta de repente
    Não vou ficar pra semente
    Mais gosto de andar no mundo
    Me esperavam na do fundo
    Sai pela porta da frente

    E dali ganhei o mato
    A baixo de tiroteio
    Ainda escutava o floreio
    Daquela cordeona do mulato
    E pra encurtar o relato
    Me bandeei pra o outro lado
    Cruzei o Uruguai a nado
    Que o meu zaino era um capincho
    E a história desse bochincho
    Faz parte do meu passado

    E a china?
    Essa pergunta me é feita
    A cada vez que declamo
    É uma coisa que reclamo
    Por que não acho direita
    Considero uma desfeita
    E compreender não consigo
    Eu em um medonho perigo
    De uma situação brazina
    Todos perguntam da china

    E ninguém se importa comigo
    E a china eu nunca mais vi
    No meu gauderiar andejo
    Somente em sonhos a vejo
    Em bárbaro frenesi
    Talvez ande por ai
    No rodeio das alçadas
    Ou talvez nas madrugadas
    Seja uma estrela xirua
    Dessas que se banha nua
    No espelho das aguadas


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