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Relato de Vida e Morte do Tordilho Natalino

Paulo Dias Garcia

Letra

    Num canhadão junto as casas a baia carpa da cria
    Na hora da ave Maria no dia em que o Cristo nasce
    Sem pedir que batizasse aquele potro salino
    Atendeu por natalino na antiga rima pampeana
    Foi quando a sina aragana assinalou seu destino

    E o torcido foi nos pulso estendendo em terra bruta a mão ligeira executa
    E o serviço já tá feito, não existe outro jeito depois que armada se cerra
    O rubro desenha a terra quando a sangria desata
    E uma ponta de tristeza, se amoita no coração
    Quando um potro vai pro chão na crueldade da capa

    Depois de três primaveras empessando a pega de potro
    O tordilho era outro a franja cruzando a venta
    Ajeitar as ferramentas, bocal, cabresto, lombilho
    E derrubar o tordilho depois de manear de encontro

    E assim que se ajeita um potro na antiga doma torena
    Foi preciso três home pra lidar com esse ventena
    Confesso que nunca vi já no primeiro galope
    Um potro negar tão forte na saída do palanque

    Metendo a Mão pela cara, tirando as rédeas pro chão
    A pata buscou o garrão quando o índio pediu a solta
    E a cachorrada na escolta mangueou de volta o matreiro
    Que despachou até o bacheiro quando corcoveou na volta

    Quando voltou pra mangueira com os olhos que eram um brasão
    Se sabia de antemão que o tordilho natalino
    Não aceitara o destino e a sina de ser bagual
    E repetiu o ritual até o oitavo galope

    Nunca se soube do trote se era duro ou macio
    E garanto que ninguém viu um outro aguentar três pulo
    Foram-se espalhando os pulos no carpeteio da doma
    Estraviaram-se caronas partiram rédeas no meio

    Consumiram com arreios na esperança de amansalo
    Mas nunca se fez cavalo de freio o filho da baia, não demorou nas redondeza
    Pra corre a fama do potro foi derrubando um e outro
    E um mato de figueira foi plantado no potreiro

    Se compreendeu que o matreiro nasceu pra ser aporreado
    E o patrão achando lindo deu um toso no malino e deixou pra reservado
    A fama foi recorrendo os bolichos e velórios
    Virou até repertorio de uma rima pacholeada
    Que um cantor improvisava numa rima de aporfia
    Pra aparecer pras guria nas tardes de carreirada
    ​Morena dos olhos lindos
    ​Se tu olhares pra mim
    ​Eu ajeito o natalino
    ​Pra o teu andar de selin
    ​Eu ajeito o natalino
    ​Pra o teu andar de selin

    Foi se tornando legenda na charla em volta do fogo
    Era motivo de jogo nas rodas do chimarrão
    Foi que o filho do patrão por moço numa bravata
    Ajeitou umas cordas de prata e apostou com a peonada
    Que amansava o tordilho e entregava de lombilho
    Pra o andar da namora, e foi num final de tarde
    Que se cumpriu a promessa depois que o destino embesta
    Ninguém ataca o paisano, foi pra uma briga de mano que puxaram o reservado

    O patrãozinho estrivado tinha coragem de sobra
    Mas a vida emprime as norma e o luto vestiu a casa
    O potro pegou na volta e atirou o cristão pra frente
    E não mais que de repente pisou o pescoço do moço

    E aquela tarde de agosto É a mais triste que carrego
    O patrão tornousse cego por ver o filho sem vida
    Por ser tão grande a ferida palmeou a arma do diabo
    E o estampido deu cabo na fama desse tordilho

    Como compreender o destino e entender as voltas da vida
    Pois quem se criou na lida entendia o natalino
    Tinha a marca do destino dos que nasceram libertos
    E morreu no céu aberto defendendo sua vontade

    Quando o dedo da maldade disparou inconseqüente
    Eu lembrei da minha gente que tombou por liberdade
    O patrão desatinado Contrariando a nossa crença pela dor e o desespero
    Mandou enterrar o matreiro num quebrado de coxilha

    Nem retirou as ensilha se foi com tudo pra campa
    É quando a terra acalambra e imprime a aridez do sal
    E mesmo na primavera que vem aflorando o pasto
    É certo naquele espaço não brota sequer chircal

    A terra morreu por triste Secou em volta do tumulo
    Dizem que às vezes no escuro a tumba ilumina e brilha
    Clareada num fogaréu, despregando-se do céu estrelas miúdas do agosto
    Dizem que as cordas do moço se desenham no relento
    Firmado no céu azul
    Quando o cruzeiro do sul
    Quando o cruzeiro do sul
    Renasce no firmamento


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