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Nocturno Suburbano

Pedro Aznar

Nocturno Suburbano

Temprano oscureció
camina más de prisa
cielo ceniza augurio azul

De nuevo no llamó
qué linda era su risa
qué estará viendo en esta luz

Nunca guardes flores en un libro de memorias
Nunca des la espalda a un mandarín
Nunca escuches misa en una iglesia sin historia
Nunca andes descalza en un jardín

Otro domingo más
modorra, olor a leña
ella se sueña otro lugar

Nunca te desnudes frente a espejos que deforman
No mires de lado a un serafín

Fin, será este el fin,
vivir así, como dormir?
Ir, adónde ir,
qué porvenir
aquí y allí?

El barrio sigue mal
un tipo corta el pasto
las torres brotan más allá

La vieja está de atar
le pasa un mate aguado
él, resignado, chupa igual

Nunca juntes migas de los pelos de la alfombra
No mires tu sombra en San Fermín
Nunca adoptes gatos de esos que andan por las fondas
No visites tías por parir
Nunca escribas cartas a quien no te corresponda
No mires eclipses sin dormir
Nunca batas claras viendo tele que se cortan
No bajes cordones en patín
No aceptes regalos de un extraño que es deshonra
No dejes un gracias sin decir

Nocturno Suburbano

Cedo escureceu
anda mais rápido
céu cinza, presságio azul

De novo não ligou
que linda era a risada dela
o que será que ela vê nessa luz

Nunca guarde flores em um livro de memórias
Nunca vire as costas para um mandarim
Nunca escute missa em uma igreja sem história
Nunca ande descalço em um jardim

Mais um domingo
preguiça, cheiro de lenha
e ela sonha com outro lugar

Nunca se despir na frente de espelhos que deformam
Não olhe de lado para um serafim

Fim, será esse o fim,
viver assim, como dormir?
Ir, para onde ir,
que futuro
aqui e ali?

O bairro continua mal
um cara corta a grama
as torres surgem mais adiante

A velha tá de lascar
passa um chimarrão aguado
ele, resignado, toma do mesmo jeito

Nunca junte migalhas dos pelos do tapete
Não olhe sua sombra em San Fermín
Nunca adote gatos desses que andam pelas cantinas
Não visite tias que estão para parir
Nunca escreva cartas para quem não te corresponde
Não olhe eclipses sem dormir
Nunca bata claras vendo TV que corta
Não desça cordões de patins
Não aceite presentes de um estranho que é desonra
Não deixe um obrigado sem dizer

Composição: Pedro Aznar