395px

Desejos

Pedro Aznar

Quereres

Donde quieres revólver soy madero
y donde quieres dinero soy pasión
Donde quieres descanso soy deseo
y si soy sólo deseo dices no
Donde no quieres nada, nada falta
y donde vuelas bien alta, soy alud
Donde pisas el suelo mi alma salta
y gana libertad en la amplitud

Donde quieres familia soy zarpado
y donde quieres romántico, burgués
Donde quieres La Boca soy Belgrano
y donde quieres eunuco, calentón
Donde quieres el sí y el no, tal vez
y donde ves no vislumbro yo razón
donde quieres un lobo, hermano soy
y si quieres cowboy, soy taiwanés

Ah! bruta flor del querer
Ah! bruta flor, bruta flor...

Donde quieres el acto soy espíritu
y si quieres ternura soy ciclón
donde quieres lo libre, decasílabo
y si buscas un ángel, soy mujer
Donde quieres placer soy el dolor
y donde quieres tortura, curación
donde quieres hogar, revolución
y si quieres policía, soy ladrón

Yo quería quererte, amar tu amor,
construirnos dulcísima prisión
y encontrar la más justa adecuación
todo métrica y rima y no dolor
Mas la vida es real y aquí tenés
la celada que nuestro amor me armó
Yo te quiero (y no quieres) como soy
No te quiero (y no quieres) tal cual es

Ah! bruta flor del querer
Ah! bruta flor, bruta flor...

Donde quieres comicio yo soy vicio
y donde quieres romance, rock'n'roll
Donde quieres la luna soy el sol,
donde pura natura, insecticidio
Y donde quieres misterio soy la luz
donde quieres un canto, el mundo entero
donde quieres cuaresma soy febrero
y donde quieres santero, soy obús

Tu querer y tu estar deseando, al fin,
lo que en mí es de mí tan desigual
me hace quererte bien, quererte mal,
bien a ti, mal a tu querer así
infinitivamente personal
Y queriendo quererte yo sin fin
aprender al quererte, así, el total
del querer que hay y del que no hay en mí.

Desejos

Donde você quer revólver, sou madeira
E onde você quer dinheiro, sou paixão
Donde você quer descanso, sou desejo
E se sou só desejo, você diz não
Donde não quer nada, nada falta
E onde você voa bem alto, sou avalanche
Donde pisa no chão, minha alma salta
E ganha liberdade na imensidão

Donde você quer família, sou arrebentado
E onde você quer romântico, sou burguês
Donde você quer La Boca, sou Belgrano
E onde você quer eunuco, sou caloroso
Donde você quer o sim e o não, talvez
E onde vê não, não vislumbro razão
Donde você quer um lobo, sou irmão
E se quer cowboy, sou taiwanês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor...

Donde você quer o ato, sou espírito
E se quer ternura, sou ciclone
Donde você quer o livre, decassílabo
E se busca um anjo, sou mulher
Donde você quer prazer, sou a dor
E onde você quer tortura, sou cura
Donde você quer lar, sou revolução
E se quer polícia, sou ladrão

Eu queria te querer, amar seu amor,
Construir nossa doce prisão
E encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e sem dor
Mas a vida é real e aqui está
A armadilha que nosso amor me armou
Eu te quero (e você não quer) como sou
Não te quero (e você não quer) tal como é

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor...

Donde você quer comício, sou vício
E onde você quer romance, sou rock'n'roll
Donde você quer a lua, sou o sol,
Onde pura natureza, sou inseticídio
E onde você quer mistério, sou a luz
Donde você quer um canto, o mundo inteiro
Donde você quer quaresma, sou fevereiro
E onde você quer santero, sou obus

Seu querer e seu estar desejando, afinal,
O que em mim é tão desigual
Me faz te querer bem, te querer mal,
Bem a você, mal ao seu querer assim
Infinitamente pessoal
E querendo te querer eu sem fim
Aprender ao te querer, assim, o total
Do querer que há e do que não há em mim.

Composição: Caetano Veloso