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Nunca Mais Vendo Cavalos

Renato Jaguarão

LetraSignificado

    Um dia eu vendi o meu cavalo
    Foi num domingo, nessas voltas de rodeio
    Eu garboso, bem faceiro
    Vinha com o pingo à lo largo
    Me ofereceram um trago, e seguimo ali proseando
    Logo vieram ofertando uns troco no meu picasso
    Era lustroso o bagual
    Calmo como chirca em barranca
    Mansidão não há quem compra, disse um velho paisano
    Largaram uns troco no pano
    E de primeira eu refuguei

    Depois logo pensei
    Hão de cuidar do meu pingo, eu nunca fui de apego
    O meu rancho é a solidão
    Ainda dei um xergão, e vendi o meu velho amigo

    Quando voltava pras casa já meio curando trago
    Fui lembrando das andança que fizemo pelo pago
    Lembrei até d'uma noite que se fomo numa barranca
    Por causa de uma potranca
    O picasso enlouqueceu
    Depois obedeceu, e voltou à compostura
    São coisas da criatura, da natureza do bicho
    Eu sei bem como é isso
    Comigo se assucedeu

    Mas eu já tinha vendido, nada mais adiantava
    A vida continuava, quantos já venderam cavalos?
    Uns bons, outros malos, mas é coisa da tradição
    Depois pegamo outro potro, domamo, e mais um tá pronto
    Prás lide de precisão

    E assim se passaram os anos, e nunca mais vi o picasso
    Mas ainda tinha lembrança, dessas festa campeira
    Debaixo de uma figueira
    Nós posamos prum retrato
    Eu virado só em dente
    Tamanha felicidade
    E ele bem alinhado, com o pescoço arrolhado
    Mostrando garbosidade

    E o tempo foi passando, eu segui domando potros
    Mas um deu pior que o outro
    Nunca mais tirei pra laço
    Lembrava do meu picasso
    Manso e bom de função
    Trazia ele na mão, nunca me refugou
    Desde o dia que chegou, potranco, bem ajeitado
    Se acostumou do meu lado, vivendo ali no galpão

    A vida é cerca tombada
    Quando se sente saudade, dói uma barbaridade
    O coração em segredo, às vezes, marca no peito
    Qual roseta nas virilha
    Não fica bem pra um farroupilha
    Ter saudade de um cavalo
    Que jeito se vai chorar, e são coisa de índio macho
    Sentimento é um relaxo
    Difícil de aquerenciar

    Mas o tempo vem solito, não traz amadrinhador
    Num dia desses de inverno
    Juntando geada no pala
    Eu vinha nos corredor, pensando nas coisas da vida
    Foi quando vi um cavalo, magro, ali atirado
    Junto à cerca caída
    Fui chegando mais pra perto, daquele couro jogado
    Os olho, perdido e triste
    Me perguntei
    Qual existe gente mala nesses mundo
    Pra atirar assim um crinudo
    Pra morrer à própria sorte?
    Pedi licença pra morte e me cheguei sem alarde
    Eu não creio em divindade, mas o milagre aconteceu
    Ali na beira da cerca, quando me olhou com tristeza
    Na hora tive a certeza
    Que aquele pingo era meu

    Levei ele pro meu rancho tratei, curei os bichado
    Dei bóia e fique do lado
    Até ele melhorá
    Perdão, meu picasso amigo, agora ficas comigo
    Não te vendo nunca mais
    Por mim pouco importa
    Se já não me serves pra lida
    Aqui será tua vida
    Até o dia de morrer
    Talvez, não tenha perdão
    Sofreste em outras mãos o que fiz naquele dia
    Te vendi por alguns trocado
    Um amigo não tem preço
    O que fiz, foi judiaria
    Nunca mais vendo cavalos

    Composição: Renato Jaguarão. Essa informação está errada? Nos avise.
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