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Boca

Poesia Oculta

Boca

Boca que arrastra mi boca:
boca que me has arrastrado:
boca que vienes de lejos
a iluminarme de rayos.
Alba que das a mis noches
un resplandor rojo y blanco.
Boca poblada de bocas:
pájaro lleno de pájaros.

Canción que vuelve las alas
hacia arriba y hacia abajo.
Muerte reducida a besos,
a sed de morir despacio,
dando a la grana sangrante
dos tremendos aletazos.
El labio de arriba el cielo
y la tierra el otro labio.

Beso que rueda en la sombra:
beso que viene rodando
desde el primer cementerio
hasta los últimos astros.
Astro que tiene tu boca
enmudecido y cerrado,
hasta que un roce celeste
hace que vibren sus párpados.

Beso que va a un porvenir
de muchachas y muchachos,
que no dejarán desiertos
ni las calles ni los campos.

¡Cuántas bocas enterradas,
sin boca, desenterramos!

Beso en tu boca por ellos,
brindo en tu boca por tantos
que cayeron sobre el vino
de los amorosos vasos.
Hoy son recuerdos, recuerdos,
besos distantes y amargos.

Hundo en tu boca mi vida,
oigo rumores de espacios,
y el infinito parece
que sobre mí se ha volcado.

He de volverte a besar,
he de volver, hundo, caigo,
mientras descienden los siglos
hacia los hondos barrancos
como una febril nevada
de besos y enamorados.

Boca que desenterraste
el amanecer más claro
con tu lengua. Tres palabras,
tres fuegos has heredado:
vida, muerte, amor. Ahí quedan
escritos sobre tus labios.

Boca

Boca que arrasta minha boca:
boca que me arrastou:
boca que vem de longe
a iluminar meu caminho com raios.
Alvorada que traz às minhas noites
um brilho vermelho e branco.
Boca cheia de bocas:
pássaro cheio de pássaros.

Canção que levanta as asas
para cima e para baixo.
Morte reduzida a beijos,
a sede de morrer devagar,
dando à grana sangrenta
dois tremendos aletos.
O lábio de cima é o céu
e a terra é o outro lábio.

Beijo que rola na sombra:
beijo que vem rolando
do primeiro cemitério
até as últimas estrelas.
Estrela que tem sua boca
emudecida e fechada,
fins que um toque celeste
faz vibrar suas pálpebras.

Beijo que vai a um futuro
de meninas e meninos,
que não deixarão desertos
nem nas ruas nem nos campos.

Quantas bocas enterradas,
sin boca, desenterramos!

Beijo na sua boca por eles,
brindo um brinde na sua boca por tantos
que caíram sobre o vinho
dos copos amorosos.
Hoje são lembranças, lembranças,
beijos distantes e amargos.

Afundo na sua boca minha vida,
oiço rumores de espaços,
e o infinito parece
que sobre mim se derramou.

Vou te beijar de novo,
vou voltar, afundo, caio,
mientras os séculos descem
em direção aos profundos barrancos
como uma febril nevasca
de beijos e apaixonados.

Boca que desenterraste
o amanhecer mais claro
com sua língua. Três palavras,
tres fogos você herdou:
viva, morte, amor. Aí ficam
escritas sobre seus lábios.

Composição: Xavier