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Cuidado Com Meias Verdades

Poeta J Sousa

Letra

    Certa vez papai comprou
    Um cavalo a um cigano
    E sem perceber passou
    Por um terrível engano
    Foi no riacho do boi
    E eu vou contar como foi
    Que o cigano velho veio
    E de modo bem sabido
    Deixou papai mais perdido
    Do que cego em tiroteio

    Papai estava na cozinha
    Assando um peixe na brasa
    Quando lá fora uma voz
    Gritou assim: - Oh de casa!
    Papai ligeiro saiu
    E da porta logo viu
    Um homem em pé no terreiro
    Que cheio de alegria
    Disse pra papai: - Bom dia,
    Oh meu nobre companheiro!

    Papai respondeu bom dia,
    Para o senhor também!
    Por favor, quem é o senhor,
    E de onde o senhor vem?
    O cigano muito esperto
    Disse assim: - eu sou Roberto,
    E moro daqui pertinho
    Tô vendendo esse cavalo
    Se o senhor quiser comprá-lo
    Eu vendo bem baratinho.

    Esse meu cavalo não
    Deixa a desejar em nada
    E já foi mais de dez vezes
    Campeão de vaquejada
    Ele é bom pra valer
    E eu sou vou o vender
    Porque tô sendo obrigado
    Pois no final desse mês
    Eu vou pela quinta vez
    Ser meu amigo, operado!

    O cavalo era bonito,
    Grande gordo e possante
    Papai disse, realmente,
    O cavalo é importante
    Mas não tem nenhum defeito?
    O cigano satisfeito
    Respondeu: - Eu só lhe digo
    Que olhe o cavalo bem
    O defeito que ele tem
    Tá na vista meu amigo!

    Papai disse: - É, no cavalo,
    Não vejo defeito não
    Da calda até a cabeça
    Ele está em perfeição.
    E cheio de cretinice
    O cigano ainda disse
    Ao papai: - Evangelista,
    Olhe o cavalo direito
    Que ele tem um defeito
    E o defeito tá na vista!

    Papai disse: - Eu estou vendo
    Seu cavalo meu amigo,
    Ele não possui defeito
    Eu confio no que eu digo!
    Quanto é o seu cavalo?
    Diga que eu quero compra-lo!
    Disse ele: - Cinco mil réis
    Papai disse é bom o preço
    Essa raça eu conheço
    Um desses aqui é dez.

    Papai puxou o dinheiro
    E pagou ali na hora
    O cigano agradeceu
    Deu no pé e foi embora.
    E papai ficou dizendo:
    - Eu agora estou tendo
    O cavalo que eu mereço
    E que eu sempre desejei
    E ainda mais eu comprei
    Pela metade do preço.

    Papai montou no cavalo
    Pra ir deixar no roçado
    Acochou nele as esporas
    E o bicho ficou parado
    Quando do canto saía
    Cambaleando batia
    No que estivesse na frente
    Não acertava o caminho,
    E papai bem rapidinho
    Ficou logo descontente.

    Aí desmontou do cavalo
    Lamentando insatisfeito
    Foi reparar no cavalo
    Pra ver se via o defeito
    E viu que o cavalo não
    Tinha a sua visão
    Era dos dois olhos, cego,
    E papai assim falou:
    - O cigano me enganou,
    Eu fui um trouxa, não nego!

    O cigano havia dito
    Com o seu instinto mal
    Que o defeito tava na vista
    Mas na vista do animal
    E papai feito um beócio
    Fechou logo o negócio
    Assanhado igual um galo
    E inocente como um boi
    E nesse caso papai foi
    Mais cavalo que o cavalo.


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