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O Tempo É Assim

Raimon

Lo Temps És Tal

Lo temps és tal que tot animal brut
requer amor, cascun trobant son par:
lo cervo brau sent en lo bosc bramar
e son fer bram per dolç cant és tengut;
agrons e corbs han melodia tanta
que llur semblant, delitant, enamora.
Lo rossinyol de tal cas s'entrenyora,
si lo seu cant sa enamorada espanta.
E doncs, si em dolc, lo dolre m'és degut
com veig amats menys de poder amar
e lo grosser per apte veig passar:
amor lo fa ésser no conegut.
E d'açò em ve piadosa complanta
com desamor eixorba ma senyora,
no coneixent lo servent qui l'adora,
ne vol pensar qual és s'amor ne quanta.
No com aquell qui son bé ha perdut,
metent a risc si poria guanyar,
he vós amat que em volguésseu amar:
deliberat no só en amor vengut.
Tot nuu me trop, vestit de grossa manta:
ma voluntat, amor la té en penyora
e ço de què mon cor se adolora
és com no veu ma fretura, que és tanta.
Llir entre cards, ab milans caç la ganta
i ab lo branxet la llebre corredora:
assats al món cascuna és vividora
e mon pit flac lo passi de Rams canta.

O Tempo É Assim

O tempo é assim que todo animal sujo
requer amor, cada um encontrando seu par:
o cervo forte sente na floresta bramar
e seu rugido por doce canto é mantido;
agrões e corvos têm melodia tanta
que sua aparência, deleitando, enamora.
O rouxinol, de tal caso, se entristece,
se seu canto assusta a amada.
E então, se me dói, a dor me é devida
como vejo amados menos capazes de amar
e o grosseiro por apto vejo passar:
amor é o que faz ser não conhecido.
E disso me vem piedosa queixa
como o desamor perturba minha senhora,
não conhecendo o servo que a adora,
nem quer pensar qual é seu amor e quanta.
Não como aquele que perdeu seu bem,
arrisca-se se poderia ganhar,
ó amado que quisesse me amar:
decidido não sou em amor vindo.
Todo nu me toca, vestido de grossa manta:
minha vontade, amor a tem em penhor
e o que faz meu coração se entristecer
é como não vê minha fome, que é tanta.
Lírio entre cardos, com milanes caço a ganta
e com o galho a lebre corredora:
assados no mundo, cada um é vivente
e meu peito fraco canta o passo de Rams.

Composição: Ausiàs March / Raimon