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A Capelinha do Arraiá

Rolando Boldrin

Letra

    Na minha terra a capelinha
    É simples, pequenininha
    Mas porém como é bonita!
    Toda de branca pintada
    E fica assim numa chapada
    No arraia de Santa Rita

    É uma igrejinha modesta
    Mas quando é dia de festa
    Da padroeira do lugá
    Fica que é uma boniteza
    E o pessoár da redondeza
    Vai tudo ali pra festá

    Quando eu era inda menino
    Era eu que tocava o sino
    E com que sastifação
    É que eu cuidava do artá
    Que limpava os castiça
    E ajudava o capelão

    Despois quando fiquei moço
    Eu me lembro com que arvoroço
    Eu vi as festa chegá
    Só pra morde as moreninha
    Que faceira e bonitinha
    Vinha festá no arraia

    E anssim que um dia
    Um ano os índio tava berando
    Foi numa festa de São José
    Foi que eu vim a conhecê
    Aquela que haverá de sê
    Um dia minha muié

    Na capela nóis se via
    Tudo a festa, até que um dia
    Resorvemo se casá
    Na capela se encontremo
    E ali memo nóis casemo
    Numa vespra de Natá

    E pouco tempo despois
    Que alegria pra nóis dois
    Padre Estevam, ô padre bão!
    Batizou nossas criança
    Juquinha, Zé, Constança
    E despois, por fim, Bastião

    Mas o que é bão pouco dura
    E um dia, que amargura!
    Um dia não sei pruquê
    Rosinha, que judiação
    Sentiu dor no coração
    E ficou ruim pra morrê

    Eu corri lá na capela
    Acendi todas as vela
    E caí de jueio a rezá
    E nos pés de Santa Rita
    Desesperado, a arma aflita
    Pedi pra Rosa sarvá

    Pedi, eu roguei, eu fiz promessa
    De fazê uma festa
    Dessas de até dá o que falá
    De eu fazê com o meu dinheiro
    Que nunca outro festêro
    Fez nas festas do arraia

    Mas quá, nada adiantou
    Quar quê!
    Foi-se embora meu amô
    E foi bonita como na vida
    Tudo de branca vestida
    E tudo coberta de flô

    E foi lá, na capelinha
    Onde eu conheci Rosinha
    Onde garremo a se amá
    Foi lá que nóis se encontremo
    Foi lá que nóis se apartemo
    Pra nunca mais se encontrá

    Eu fiquei anssim como loco
    Porque palavra de caboclo
    Inté perdi minha fé
    Num entrei mais na capela
    Nunca mais passei por ela
    Nunca mais lá pus meus pé

    Agora, às vez de tardinha
    Ouvindo as Ave-Maria
    Na capelinha tocá
    Escuitando a voz do sino
    Que eu toquei quando menino
    Sem querê garro a lembrá

    Tudo que ali se passo
    As alegria, as dô
    Que já tá longe, pra trás
    Mas que tá sempre presente
    E que o coração da gente
    Não se esquece nunca mais


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