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Dramaturgia

Sergio Anil

Letra

    A criança continuava perambulando por ali
    Ora sorria e brincava, ora reclamava, chorava
    Ela acende a luz do quarto porque ainda tem medo do escuro
    Lais se incomoda com a menina, mas não interfere em nada

    Sabe que seu alicerce se rompeu muito cedo
    E por conta disso, ela se sente aleijada
    Se identifica muito com a menina porque também
    Não teve modelos e nem referências

    Se sentia um ET por se achar tão estranha
    E tão diferente das outras crianças
    Lais se esquece um pouco daquela criança
    Quando de repente descobre cores e sons

    Mergulha fundo nesse novo mundo e se percebe interessante
    Também percebe que sua boca é bonita
    A menina lhe chama, mas Lais não ouve
    Porque se distrai também com desenhos e ritmos

    Na sequencia grita, abre os braços e lhe pede colo
    Mas Lais nega pela primeira vez depois de muitos anos

    Enquanto a criança esperneia, Lais esboça um assovio
    E percebe sua boca funcional e versátil
    Já não chora mais com dó da menina
    Nem de si mesma e aprende a sonhar de verdade

    A pequena berra em desespero
    Mas Lais a ignora
    Já não quer mais contemplar o abismo que ela lhe mostrou
    Aos poucos o desespero da menininha vai se dissipando
    Assim como a melancolia de Lais

    Ela engole o choro ao notar que Lais agora canta
    Cantando, compreende a diferença
    Entre o complexo de inferioridade e a humildade
    E solta a voz, mesmo desafinando

    Encontra seu calcanhar de Aquiles e o esconde como um ator
    Abusa do silêncio porque sabe que a boca
    Tem o poder de dar a vida e a morte
    Aprende a acalmar a criança assustada
    Que agora já enfrenta o quarto escuro e cochila
    Seus lábios antes submissos agora querem beijar

    Ansiosos, são mordidos numa fissura inédita
    Porém suas ideias ainda atropelam suas ações
    Pobre de argumentos mas rica de sentimentos
    Inconscientemente imita a menina
    Num movimento de abrir os braços

    Pra recepcionar a população que almeja acolher
    E insiste em querer decifrar universos que lhe tocam diariamente
    E se antes não degustava as pequenas guloseimas
    Que sempre estavam disponíveis, agora quer experimentar
    Todos os sabores que a vida pode oferecer
    Questiona suas paixões por pessoas e coisas
    E já não insiste tanto em querer dar o que não tem a quem não quer

    Como a criança não mais lhe tortura
    Lais se desvencilha do solo e resolve abraçar o mundo
    Exercita o perdão como quem bebe água
    Não economiza sua resiliência e saliva até com o inacessível
    Enxerga sua boca como uma artista multifacetado
    E com ela sorri, xinga, recita, canta, beija, discursa, cospe
    Cospe finalmente na cara do medo
    A criança agora dorme em paz


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