exibições de letras 16
Letra

    Dois sacos de cimento dá cem quilos
    Na cabeça
    A consciência fica na cabeça? Aqui, na cabeça?
    Então a minha consciência é pesada
    Num tem outro jeito
    A consciência pesa com o cimento que eu carrego
    Leva dois de uma vez, pra acabar mais rápido, Máquina
    Eu levava, que era pra atender o meu patrão
    Ele pede eu faço na hora
    Aqui é disposição pura
    E com o patrão não tem miséria

    Ele me contratou, eu era novo
    Me viu na rua, perto da loja, passando necessidade
    No início, não tinha como pagar em dinheiro não
    Me pagava em comida
    Eu comia
    E quanto mais comia, mais trabalhava
    Era bom demais
    Comer, não trabalhar
    De manhã, pão com mortadela
    Podia pegar duas fatias, três
    A mortadela não acabava
    A mortadela era eterna
    À tarde ele comprava guaraná
    E no almoço tinha quentinha
    Cheia até a boca
    Duas carnes
    Com o patrão não tem miséria

    Eu dava moral pro meu trabalho
    Não foi mole entrar não
    Eu tinha onze anos, mas era grande, tinha porte
    Ele me chamou e disse que era pra eu fazer um teste pra ser funcionário da loja
    Pra ver se eu aguentava o tranco
    Tinha um caminhão de areia pra encher
    E eu tinha um tempo pra fazer a tarefa, que ele marcou no relógio de ouro dele
    Quis nem saber, fiz em menos
    Triste era o Sol nas costas
    Nem um ventinho
    Mormaço da porra
    Mas eu fiz
    Aí eu ouvi o patrão falando meio que sozinho, alisando os meus ombros
    Esse menino parece uma máquina
    E foi aí que eu virei o Máquina

    Eu tinha uma professora que não gostava desse apelido
    Eu contei pra ela que uma caixa de piso caiu no meu pé
    Rasgou, a caixa e o pé
    Tive que ir pra escola de chinelo, mancando
    Ela reclamou, disse que Máquina era lá jeito de chamar alguém
    Que eu tinha um nome
    E que meu nome era bonito
    Mas aí na hora da chamada, em vez de me chamar pelo nome bonito
    Ela me chamava pela porra de um número
    A sala cheia, e eu fazia maior esforço pra ouvir
    Quarenta e um
    Presente
    Faz um favor, professora, entre ser o quarenta e um ou ser o Máquina
    Eu escolho o pão com mortadela e as duas carnes
    Aqui na escola nem guaraná serve
    É suco com caju ralo
    Já com o meu patrão não tem miséria

    Mas aí um dia o patrão veio com um papo estranho
    Um papo torto, esquisito
    Disse que era pra eu ficar até mais tarde na loja
    Hoje vai ter janta também, Máquina
    Fiquei, só que a contragosto
    É que ninguém mais ficou
    Ele me levou pro depósito
    Ficou passando a mão no meu ombro que nem no dia do teste
    Aí ele disse que queria que acabasse com ele, que nem uma máquina
    Meu patrão tirou a roupa
    Vamo lá, eu tinha doze anos
    Eu nunca tinha encostado em ninguém
    Vem cá, Máquina
    Não fui
    Vem cá, Máquina
    Fui não
    Ele se levantou
    Tava que nem um cachorro
    Quanto te pago por dia?
    Paga trinta, patrão
    Então agora é cinquenta
    Meu Deus, um galo é muita grana
    Desconfiei
    Vai cortar a quentinha? As duas carnes? A mortadela?
    Ele disse que não
    Era cinquenta mais a comida
    Com o patrão não tem miséria

    A partir daí era duas, três vezes por semana
    Eu dormia com aquela voz na cabeça
    Máquina. Máquina. Vai Máquina. Máquina
    Que nem uma locomotiva
    De manhã e de tarde, me matava de carregar caminhão com pá de areia
    Transportar caixa de piso, levar dois cimentos de uma vez
    E à noite atendia ele
    Só que quando eu tinha catorze anos, eu entendi
    Não foi a professora que me ensinou, não foi a escola, não foi a família
    Não foi gente do governo, nem polícia
    Aliás, um policial que pegava um arrego com ele até viu a gente no depósito
    Riu e saiu, o filho da puta
    Como depender de um verme desse?
    Então foi sozinho mesmo. Foi eu. Foi por conta
    Cresci e entendi. Um dia acordei com aquela voz
    Vai Máquina. Vai Máquina. Vai Máquina
    E percebi que o patrão me pagava pra eu comer ele
    Percebi assim, no automático
    Fui trabalhar normalmente
    Aliás, normalmente, não
    Eu tava um absurdo naquele dia
    Só tinha eu de peão
    Geral tinha faltado
    Fiz o serviço de três
    Mas também comi a quentinha de três, a mortadela de três e bebi o guaraná de três
    Fechei as portas da loja cinco horas
    Ele já tava que nem um cachorro no depósito
    Em cima do cimento, com a cara e os ombros cinza
    Vem, Máquina
    Eu fui com força
    Ele gemia, gritava
    Máquina, Máquina, Máquina
    Aí eu cravei
    Cravei a faca pra churrasco, que a loja vendia, na barriga dele
    Ele caiu em cima do próprio sangue
    Por que isso, Máquina, por que isso? Chutei as costas
    Para, pelo amor de Deus, Máquina. Pisei no pescoço
    Não me mata, sua consciência vai ficar pesada, Máquina
    Consciência? Essa que fica na cabeça? A consciência pesa com o cimento
    Com os dois sacos que levo de uma vez pra adiantar a tua entrega
    Tem como ser leve não patrão
    Tenha pena então, Máquina
    Primeiro eu cuspi na cara dele
    Depois eu falei: Pena é coisa de gente. Eu sou Máquina
    Eu não era mais gente não
    Por isso é que bati. Chutei. Pisei. Estrangulei
    Só conservei a cara por causa do enterro
    Aliás, eu bem que queria ir no enterro dele
    Com certeza vão servir quentinha
    Guaraná e mortadela
    Com o patrão não tem miséria

    Composição: Jonatan Magella / Sergio-SalleS-oigerS. Essa informação está errada? Nos avise.

    Comentários

    Envie dúvidas, explicações e curiosidades sobre a letra

    0 / 500

    Faça parte  dessa comunidade 

    Tire dúvidas sobre idiomas, interaja com outros fãs de Sergio-SalleS-oigerS e vá além da letra da música.

    Conheça o Letras Academy

    Enviar para a central de dúvidas?

    Dúvidas enviadas podem receber respostas de professores e alunos da plataforma.

    Fixe este conteúdo com a aula:

    0 / 500

    Opções de seleção