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O Matador

Silvio Rodriguez

El Matador

Siento un hilo profundo
que atraviesa el espacio
-de tiempo en tiempo llega
despacio-.
Siento olor de llanuras
llenas de peregrinos
-la llanura se llama
camino-.

Siento de pronto el gusto
de un raro mineral,
me siento a veces hombre
y muchas animal.
Se confunde el deseo
de calentar la piel
con rugidos lejanos
que recuerdan mujer.

Y en una playa angosta caen del cielo
estas reminiscencias de veneno.
Yo no sé, pero hay días sin reposo
que lo que tenga cerca lo destrozo
muy primitivamente, casi salvajemente,
con odio, con desprecio, con rencor,
con palabras hirientes, con garras y con dientes,
con rabia, con violencia, con horror.

Le he cantado a la muerte
como nadie con vida,
mas yo dijera siempre:
querida.
Junto a cada palabra
hay cuerpos de millones
y los maté yo mismo:
perdonen.

A veces se me olvida
que mato por vivir
y olvido los entierros
y no quiero dormir.
El día que me acusen
no me defenderé:
esta culpa es muy vieja,
de todos la heredé.

Y en una playa angosta caen del cielo
estas reminiscencias de veneno.
Yo no sé, pero hay días sin reposo
que lo que tenga cerca lo destrozo
muy primitivamente, casi salvajemente,
con odio, con desprecio, con rencor,
con palabras hirientes, con garras y con dientes,
con rabia, con violencia, con horror.

O Matador

Sinto um fio profundo
que atravessa o espaço
-de tempo em tempo chega
devagar-.
Sinto cheiro de planícies
cheias de peregrinos
-a planície se chama
caminho-.

Sinto de repente o gosto
de um mineral raro,
me sinto às vezes homem
e muitas vezes animal.
Se confunde o desejo
de aquecer a pele
com rugidos distantes
que lembram mulher.

E em uma praia estreita caem do céu
essas reminiscências de veneno.
Eu não sei, mas há dias sem descanso
que o que tiver por perto eu destruo
muito primitivamente, quase selvagemente,
com ódio, com desprezo, com rancor,
com palavras cortantes, com garras e com dentes,
com raiva, com violência, com horror.

Eu cantei para a morte
como ninguém com vida,
mas eu diria sempre:
querida.
Junto a cada palavra
há corpos de milhões
e eu os matei eu mesmo:
perdoem.

Às vezes eu esqueço
que mato para viver
e esqueço os enterros
e não quero dormir.
No dia em que me acusarem
não vou me defender:
essa culpa é muito antiga,
de todos eu herdei.

E em uma praia estreita caem do céu
essas reminiscências de veneno.
Eu não sei, mas há dias sem descanso
que o que tiver por perto eu destruo
muito primitivamente, quase selvagemente,
com ódio, com desprezo, com rancor,
com palavras cortantes, com garras e com dentes,
com raiva, com violência, com horror.

Composição: Silvio Rodriguez