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Lamento de Um Peão

Valdemar Reis

LetraSignificado

    Na estação rodoviária eu vi um velho sentado
    O que me chamou atenção foi como estava trajado
    Um chapéu de carandá, uma bombacha empoeirada
    Uma guaiaca na cintura e um gibão aniquilado
    Eu disse: - Meu velho, conte um pouco do seu passado
    Porque tudo indica o senhor já lidou com gado
    Ele disse, meu filho eu faço isso a muitos anos
    E nesta labuta triste eu só tive desenganos

    Eu já vi coisas bonitas meu filho, tocando boi no sertão
    Já sofri, chorei de mágoa, fui empregado e fui patrão
    Já vi águas cristalinas correndo no ribeirão
    Já dormi em berços de ouro e hoje eu durmo no chão
    É eu já fui muito insinuado e tive muito dinheiro
    Percorri muitos estados nesse solo brasileiro
    Já fui dono de grandes tropas, já fui até fazendeiro
    Hoje não tenho mais nada, sou peão de boiadeiro.

    O revés na vida da gente é como o estouro do gado
    A riqueza e a miséria caminham de braços dados
    Eu já tive muitos amores e um passado seguro
    Nem lembro de fim de vida, de presente ou de futuro
    Sou como a cascavel que enrola pra dar o bote
    Lobo velho e calejado não tem medo de chicote
    De tudo o que já passei eu me sinto conformado
    Quero morrer na poeira sentindo o cheiro do gado.

    Na lida eu fui berranteiro, fui ponteiro e capataz
    Já transportei muito gado sem deixar uma rês pra trás
    Dormia no meio do gado, vendo o gado remoendo
    E vendo a lua entre as nuvens de quando em quando escondendo
    Na frente de uma boiada, meu filho, vai sempre a tropa e o cargueiro
    O chefe da comitiva, as bruacas, o cozinheiro
    Nas margens de um riacho ali na beira da estrada
    Na hora da refeição reúne-se toda a peonada.
    Já senti o frio da chuva, o cheiro da estrada molhada
    Já vi os peões gritando em um estouro de boiada
    Já vi a coruja no toco, o lobo uivar no grotão
    Já vi um marruco bravo gemer nas mãos do peão
    Já vi o sol despontando e o orvalho no capim
    E uma boiada murgindo ali ao redor de mim
    Nunca comecei viagem seu moço, para não chegar ao fim
    E esse orgulho eu sempre tive, sei que vou morrer assim.

    Meu filho, o gado advinha quando o tempo vai mudar
    Conhece o ponto de pouco, onde ele vai pernoitar
    Conhece o som do berrante e o grito dos boiadeiros
    E o que ajuda os peões é a prática do sinuelo
    Sinuelo, Sinuelo é um boi velho com um sinete no pescoço
    Que vai junto com a boiada, atento nos alvoroço
    Se um peão perde uma rês dentro do mato alongada
    Com jeitinho o sinuelo retorna a rês na manada.

    Gosto de ver as paisagens, os rios, as verdes campinas
    O sol a tarde sumindo atrás daquelas colinas
    E aquela nuvem de poeira que o vento vai levando
    E o pássaro um Anú Preto, no lombo do boi andando
    Já vi a moça bonita acenando na janela
    Vi um trinta pendurado na cintura do pai dela
    Todo peão atrevido seu moço, pode cair na esparrela
    O que eu não vi é couro duro que aguentasse nosso vela

    Estou aqui de passagem na cidade grande
    Não vi onde o sol nasce, nem onde ele se esconde
    Esta poeira daqui meu filho, tem um cheiro tão diferente
    Eu prefiro o cheiro do gado do que o cheiro dessa gente
    São Paulo, né?
    Agora você me dá licença que o meu ônibus está de partida
    Vou para outras paragens é hora da despedida
    E não lhe contei a minha vida, apenas algumas passagens
    Espero deixar com vancê, deste velho uma boa imagem

    Até logo, meu filho, até logo


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