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O Sintoma Do País

Valdiner Pereira

Filha de retirantes que a terra esqueceu
No sertão seco, o Sol dela não nasceu
Mulher, pobre e preta: Três alvos nas costas
O sistema pergunta, mas não quer as respostas
Viu o grileiro expulsar sua família
Guardou o ódio, mudou de trilha
Ônibus clandestino, destino à capital
Achando que o Sol brilhava pra todos por igual

Mas Maria não encontrou o cristal da propaganda
Só o concreto frio de quem o sistema manda
Não era aparecida, era a dama de copas
Contra o muro invisível, ela montou suas tropas

Tentou ser doméstica, mas a patroa humilhou
Sotaque e cor, o preconceito gritou
Tentou ser operária, mas o teto de zinco
Custa mais caro que o salário de um instinto
Fome e injustiça, a prisão foi o presente
Culpado rápido pra um sistema doente
Não encontrou justiça, mas a escola do crime
A frieza de quem não tem nada que a estime

Estratégia e mente, mais inteligente que o chefão
Dominou a periferia com a arma na mão
Sustentou a creche, deu comida aos velhos
Justiceira marginal refletida nos espelhos
Queria falar com o governador, dizer que o povo morria
Mas no boletim de ocorrência, ela era só estatística fria

Aí veio João Paulo, o professor, seu redentor
Sua Maria lúcia, a promessa de um novo valor
Largar o gatilho, ter um lar, nome limpo no papel
Mas o sistema não perdoa quem tenta o céu

Rodrigo canivete, o caos é o seu lucro
Policial corrupto, armado e truculento
Emboscada armada, mídia em cima do mestre
Comparsa da bandida, disseram no terreno central
Na praça deserta, o encontro com o fim
Sob as câmeras do helicóptero, um show de marfim
Para a elite no jantar, entretenimento ao vivo
O sangue de Maria servido como um paliativo

Ela não atirou, abriu os braços na via-crúcis
As balas atravessam, apagam-se as luzes
No bolso a carta para a autoridade maior
Pedindo escola e dignidade, um mundo melhor
Papel manchado de sangue, jogado no lixo pela perícia
A elite desliga a TV e ignora a notícia
Dizem que é violência urbana, sem entender a razão
Que Maria é o sintoma da exclusão
O ciclo se fecha, o ônibus para na rodoviária
Desce outra Maria, a próxima destinatária


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