Exibições da letra 454

Minha Terra

Valdir Teles

LetraSignificado

    Eu nasci lá num recanto
    Do sertão que amo tanto!
    Onde o céu desdobra um manto
    Feito de rendas de anil
    Onde o Firmamento extenso
    É um grande espelho suspenso
    Refletindo o rosto imenso
    Da minha Pátria, o Brasil

    Criei-me lá na Fazenda
    Que foi minha velha tenda
    Onde escutei a legenda
    Das coisas coloniais
    Papa-figos, feiticeiros
    Cantadores, cangaceiros
    Caçadores e vaqueiros
    Reino Encantado, e outros mais

    A minha casa paterna
    Não é a casa moderna
    Onde somente governa
    Gente da aristocracia
    É um casarão de biqueiras
    De esteios, de cumeeiras
    De travessões e soleiras
    Linha, ripa e caibraria

    É um casarão barrentio
    De labrojeiro feitio
    Desconforme, luzidio
    Minado de rubra cor
    As suas fulgentes telhas
    Flamejam como as centelhas
    Dessas lágrimas vermelhas
    Que Sol derrama, ao se pôr

    Existe à frente um baixio
    Onde um sonolento rio
    Descansa em dorso macio
    Numa esteira de cristal
    Naquele terreno vasto
    Onde a terra tem mais pasto
    Onde o Brasil é mais casto
    Eu vi meu berço Natal

    Ah meu tempo de menino
    Tempo de bem pequenino
    A minha vida era um hino
    Cantando no coração
    Tempo da primeira escola
    Da arapuca, da gaiola
    Do berimbau, da viola
    Da burrica e do pião

    Ah! Que tempo de fartura
    De carne, de rapadura
    De leite e manteiga pura
    Coalhada grossa, escorrida
    Tempo de cascão de queijo
    Que é manjar do sertanejo
    Ah tempo velho que vejo
    Retratado em minha vida

    Às vezes quando chovia
    De manhã bem cedo eu ia
    Reparar se a vacaria
    Estava em paz, no curral
    Depois, revia, ligeiro
    As cabras lá no chiqueiro
    Visitava o galinheiro
    E percorria o pombal

    Ah! Que tempo de alegria
    Quando, bebendo poesia
    De calça curta, eu corria
    À margem do Pajeú
    Comendo jaboticaba
    Melão, mamão e goiaba
    Cambuí, jambo e quixaba
    Maracujá e umbu

    Oh! Que primorosas cenas
    Quando nas tardes amenas
    O pavão abria as penas
    Iluminando o quintal
    Quando a asa-branca, saudosa
    Junto à juriti, queixosa
    Cantava triste e nervosa
    À sombra do braunal

    Nasci fitando as colinas
    Onde as águas cristalinas
    Espalham pelas campinas
    O pranto que o céu chorou
    Onde a terra forma um adro
    Mostrando a risco de esquadro
    O mais invejável quadro
    Que a mão de Deus desenhou

    No meu sertão brasileiro
    Foi onde eu ouvi primeiro
    O cantador violeiro
    Modulando uma canção
    Fazendo da alma – cigarra
    Da garganta – uma guitarra
    Da vida – uma eterna farra
    Do Brasil – o coração

    Composição: Valdir Teles. Essa informação está errada? Nos avise.

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