
Arquivo morto (Ou quase isso)
Wendell Soares
Ainda que perdida na gaveta da memória
Debaixo de certezas que escolhi ignorar
Não posso estar surpreso ao saber que aqui está
De volta a pior parte que escrevi da minha história
Num velho e apodrecido pensamento de rascunho
Escrito em letra feia com a burrice do imprudente
Que fez de suas linhas o capítulo doente
Que foi sem ser notado mais um fim de vida em junho
E ler fora de hora seus parágrafos disformes
Me soa perfurar a cicatriz com canivete
E dar um fim à vida, a outra e outra não diverte
Da forma que eu lembrava dos silêncios que não dormem
Mas antes era pouco e de tão pouco fez-se torto
O ato de fingir que havia força no sarcasmo
Que hoje me revira e faz da dor o frágil espasmo
A vomitar por cima desse meu arquivo morto
Mas morto não devia se calar pra todo o sempre?
Ou se ousar retorno, pelo menos dê um aviso?
Porque se for pra ser a mesma merda de improviso
Eu devo confessar que não sei mais olhar de frente
A minha cara triste a escolher nessa paleta
Qualquer variação que me esconda a cor da morte
A escorrer dos olhos o que antes me fez forte
E hoje é tão somente a mesma folha na gaveta
Que transformou o medo no maior dos meus assombros
E amarelou o riso que nem sei se um dia tive
Mas que de qualquer jeito não impede a queda livre
Que me exige ver o que guardei entre os escombros
Do cínico desejo de não ser somente a lama
Mas se for pra ser algo que então seja algo que importa
Porque viver assim é como não abrir a porta
Com a chave entre os dedos perdendo quem ama




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