Exibições da letra 2

Canção contrária à vida sob a ótica de John

Wendell Soares

Letra

    E assim me querem entre o sim e não mais canalha
    Cumprindo com rigor esse fajuto e falso pesar
    Por hora, esquecem que o que sangra aqui é só mortalha
    Jamais um passe livre que autoriza alguém entrar

    E a vida se vende em começo, meio e fim
    Mas te entrega apenas a desgraça e o impossível
    Era mesmo necessário que eu ficasse visível
    Justamente quando eu nem morava mais em mim?

    As coisas passam por nós, e esta passou por cima
    E enquanto isso passava eu me senti mais só
    Me diz se estava aqui ou se tua obra-prima
    Foi mentir que era luz no abismo ao meu redor

    Olhar pra dentro e se sentir desinteressado
    É como estar perdido e nu, sem reagir
    Ver parte dos seus planos um por um rasgados
    Enquanto vi o caos de bolso se extinguir

    As emoções não seguem direção
    Se dobram, dançam, fogem da razão
    Voltam em espiral pra mostrar
    Que cura exige fé e então vou reclinar

    Porque cura é recomeço e nem sempre vale
    Tentar um outro ciclo e planejar também
    Se a dor que é sua é sua e dos outros cabe
    No mesmo espaço onde não habita alguém

    Aprendi quem são os meus e acho uma pena
    Que a razão me diga apenas pra trancar a porta
    Mas é que neles vive o meu maior dilema
    De aceitar que ninguém, além de mim, se importa

    É estranho explicar que até quem era bom
    Num arroubo impensado foi um idiota
    Ao pensar que podia ler minha melhor nota
    Com o talento frouxo de um abiã sem dom

    E o que fazer quando tudo ruir?
    Como assim vocês sabem ao certo
    Se viver é recomeçar sem querer
    Eu só que não quero quem não sinto perto

    Porque até quem foi necessário
    Precisou figurar entre os que eu não escuto
    Achou de bom tom me exigir viver o luto
    Cobrar que foi negado como fosse um relicário

    Ao perder de vez essa versão de mim
    Eu também perdi o amor que sempre foi meu guia
    Por isso, não me peça nessa galhardia
    Seguir com este pedaço que restou em mim

    Não esperem que eu vá compartilhar
    Eu mal abri a porta e enxerguei só vazio
    Mesmo sem afluente, até tentei ser rio
    Mas seco, assim, não é possível que eu me torne mar

    Porque mar é recomeço e por isso transborda
    É margem e é tempestade num dia sombrio
    Mas se quem me navega me tirou o brio
    O que fazer com tanto nó na mesma corda?

    Aprendi quem são os meus e é um desperdício
    Deixá-los juntos a quem me soa sempre igual
    Mas é que eles também me querem reinício
    Sem nunca perceber que não saí do final


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