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Anamorismo (Em defesa dos amores líquidos)

Wendell Soares

Quando encosta em mim, cada nervo vira músculo
Teu sarcasmo cobre a solidão de verniz mítico
Eu disfarço o abismo, por dentro, tudo é efêmero
Prometo ir embora, mas o corpo implora um término

No teu beijo a cidade se desaba como tétrica
Tua língua reescreve em minha pele o mesmo código
Que ignora sim e não, mas o estrago se faz nítido
Mesmo que a culpa tente impor no peito um método

De aquietar a solidão e dar a ela o melhor cômodo
Pra nenhum outro ocupar, você deita sem ser único
O relógio nos vigia com um tique quase ríspido
Cada minuto se esvai pela fresta do acústico

Nosso amor tão líquido
Escorre da pele e afoga o íntimo
Não suporta nome, rejeita rótulo
E gira de novo no mesmo círculo

Teu sorriso traz de volta um velho ímpeto
Mas teus olhos calculam cada risco cínico
Eu arquivo os nossos toques num registro tímbrico
Como se um coração partido coubesse em gráfico

Se me chama eu respondo sem nenhum prólogo
Desaprendo cada cláusula deste código
Teu perfume atravessando o meu fôlego
Reanima e retalha o peito em compasso sôfrego

Esse afeto contradiz qualquer cálculo
Transforma Deus em exercício bélico
Nosso medo balança preso num pêndulo
Entre o nunca e o talvez mais híbrido

Nosso tempo a dois morrendo cínico
Se esvai da pele e adoece o íntimo
Não aceita termo, repele rótulo
E acaba girando no mesmo círculo

Quando a noite desabar em silêncio lívido
Cada um vai carregar o próprio dédalo
Mas no lençol vai ecoar um rastro físico
Desse amor que escolheu, por si, ser líquido


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