Nova Mente

Wiara Soares

Ela chega, sempre chega
Sem sapatos, sem rosto
Com o silêncio pendurado no pescoço
Colar de ausências que não brilham
Desfaz a casa dentro de mim
Move a cômoda da esperança pro escuro
Derruba risadas da prateleira
Sopra poeira nos meus dias que eram claros

O tempo, coitado, tenta correr e tropeça
Um relógio ofegante pinga segundos cinzentos
Sépia de ontem, ferrugem no tic

Ela, a sombra que mora em mim
Me veste de noite por dentro
Desata meus passos, ata meus braços
Promete: Ficar é sobreviver
Eu respiro, meio, e sigo, menos
Mas sigo

Ela me invade em camisa branca de hospital e medo
Amarra meus gestos com nós de prudência
Diz que o mundo é muito alto pra hoje
Tento gritar, a voz desiste no corredor
E aprende com as mãos frias
O peso exato da ausência

As flores, pobres, sábias, murcham sem drama
Sabem que há dias em que o Sol prefere não vir

Ela, a sombra que mora em mim
Apaga os contornos do quarto
Sussurra baixinho não se move
E a casa aceita, imóvel, o susto

Não peço socorro, fecho os olhos
Abraço meu próprio contorno pra lembrar
Que ainda existe pele sob o nevoeiro

E eu digo ao breu que me habita: Escuta
Talvez, só talvez
O amanhã se lembre de nascer
E quem sabe haja Sol, nova mente


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