exibições de letras 2.302

O Candidato e o Caipira

Zé Fortuna & Pitangueira

Letra

    - Olá caboclo, bom dia. Então, como vai você?
    - Vou indo bem, seu dotô, mas me descurpe eu dizê
    Eu não conheço o sinhô. Quem tu é, posso sabê?
    - Ora, caboclo, nunca ouviu falar do dr. Pereira?
    Fui prefeito há muito tempo no arraial das caneleiras.
    - Ah! Já ouvi falar do seu nome, mas o que eu tô admirado é que eu nunca vi o doutor andando por estes lado e hoje por que razão abandonou o povoado?
    Pra vir conversá na roça com um caboclo pé-rapado?

    - Aí é que está o motivo de eu vir lhe visitar:
    Pensei em você que passa o dia todo a labu
    Capinando a terra dura sem ninguém lhe auxiliar.
    Por isso eu deixei a cidade e vim aqui lhe ajudar.
    - Mas doutor, tô até envergonhado só de ouvir o senhor falar
    O senhor deixou a cidade pra vir aqui me ajudá?
    O doutor tem as mão fina, num vai se acostumá doutor
    O cabo da enxada vai suas mãos calejá.
    Bem, mas já que o senhor insiste vou uma enxada lhe arrumá.

    - Não, não, não, não é isso que eu quero. Você entendeu mal
    O fato é que as eleições vem aí e eu sou um dos candidatos.
    - Bem que achei impossível tanta fartura hoje em dia!
    Quando o milagre é demais até o santo desconfia.
    - Mas como eu estava dizendo. Eu quero, se for eleito
    Lhe auxiliar na assembléia defendendo seus direitos
    Enquanto você trabalha de sol a sol aqui no eito,
    Eu luto para que a pátria reconheça o vosso feito.
    Eu vim pedir o seu voto, que é a arma do cidadão,
    Com ele você me elege e formamos a união
    Para juntos construirmos a grandeza da nação!

    - Muito bonito, dotô! Sua fala doce tem mé.
    Mas tu qué sarvá a nação lá na cidade, não é?
    Mas pegá no guatambu de sol a sol tu num qué!
    Pois daqui depende a pátria, das lavoura do sertão.
    Destes campos, destas matas, dos calos de nossa mão,
    Desses caboclo que luta sem nunca ter recompensa,
    Sem estrada, sem recurso, sem remédio pras doença,
    E o dotô se for eleito já qué aumento dobrado desse tar de subsídio
    Que o pobre chama ordenado. E prá que desigualdade se somo igual
    Brasileiro pois ganha mais tu num dia do que o pobre o ano inteiro?

    - Mas é justo que devemos ganhar mais do que vocês,
    Pois o que eu gasto num dia, você não gasta num mês.
    - Não gasto porque não tenho, mas bem que eu sei o que é bom!
    Ah, se eu pudesse possui automove, televisão.
    Por isso o certo seria vocês num ter ordenado
    Prá vê quem era no duro, um democrata apurado.
    Garanto que ninguém mais queria ser deputado,
    E tem mais, se aqui a seca acabá com as plantação
    Não aparece ninguém oiá pra nóis no sertão.
    E por que só vem agora nas época de eleição?

    - É porque não temos tempo de abandonar a cidade
    Ocupado com os problemas que afligem a sociedade.
    - Óia outro erro, dotô, se eu fico sem trabaiá, o patrão
    Me manda embora, não tenho com quem queixá
    E vocês lá na assembléia se quizé pode fartá um ano inteiro
    E recebe ordenado legar. Se um dia o pobre caboclo cansado
    Da dura lida fizé um erro, coitado, tá preso por toda a vida
    Enquanto vocês, dotô pode errá a vontade, não tem cadeia porque goza da imunidade. Por isso me dá licença tenho outra ocupação
    Meus fios, pega a enxada e vamo entrá no taião, essa conversa, dotô
    Num enche barriga, não.


    Comentários

    Envie dúvidas, explicações e curiosidades sobre a letra

    0 / 500

    Faça parte  dessa comunidade 

    Tire dúvidas sobre idiomas, interaja com outros fãs de Zé Fortuna & Pitangueira e vá além da letra da música.

    Conheça o Letras Academy

    Enviar para a central de dúvidas?

    Dúvidas enviadas podem receber respostas de professores e alunos da plataforma.

    Fixe este conteúdo com a aula:

    0 / 500

    Opções de seleção