
O Clarão das Ribanceiras
Astrikos Katoikos
Longe dos currais poeirentos
Num sertão de samambaia
Dois campeiros se embrenharam
Pela grota da Jandaia
Nico Lara vinha sério
Anselmino cantador
Procurando um novilho
De pelagem cor de flor
Pelas furnas do Taboco
O nevoeiro descia
Feito pano envelhecido
Sobre a mata arredia
Cada touça do caminho
Se encostava no luar
E os cavalos refungavam
Sem vontade de avançar
Ê clarão das ribanceiras
Quem derrama seu luzeiro
Tem riqueza nesse fogo
Tem desgraça no roteiro
Quem se perde nas groteiras
Vendo a dama arredando
Vai deixando o próprio nome
Nos desvãos do recanto
Anselmino ouviu longe
Um chocalho sem boiada
E uma cantoria rouca
Pela furna ensombrada
Nico Lara apeou lento
Pra enxergar na luação
Quando viu correndo ouro
Pelas pedras do grotão
Era moça ou assombro antigo
Nem os dois souberam ver
Só notaram os cabelos
Cor de brasa a escorrer
E um vestido amarelando
Feito cobre de fundição
Clareando as gameleiras
Na fundura do espigão
Ê clarão das ribanceiras
Quem derrama seu luzeiro
Tem riqueza nesse fogo
Tem desgraça no roteiro
Quem se perde nas groteiras
Vendo a dama arredando
Vai deixando o próprio nome
Nos desvãos do recanto
Anselmino quis benzê-la
Com um verso de oração
Nico Lara viu novilhas
Pastos grandes e alazão
Viu terreiro iluminado
Viu fartura no paiol
Viu varanda branqueando
Naquele Sol depois do Sol
Veio um ronco pelas pedras
Revirando o carrascal
E o garrote apareceu
Disparando pro varjal
Anselmino foi atrás
Na carreira do alazão
Nico Lara ficou preso
Na quentura do clarão
Ê clarão das ribanceiras
Quem derrama seu luzeiro
Tem riqueza nesse fogo
Tem desgraça no roteiro
Quem se perde nas groteiras
Vendo a dama arredando
Vai deixando o próprio nome
Nos desvãos do recanto
Quando o dia abriu vermelho
Sobre as cristas da chapada
Anselmino regressou
Pela trilha ensaburada
Mas do outro só sobraram
Marca funda pelo facho
E um chapéu despedaçado
Na barranca do riacho
Hoje em noites de trovada
Quem escuta o descampado
Ouve casco sem cavaleiro
Pelo ermo desolado
E um chamado comprido
Vindo além do taquaral
Feito um homem campeando
Num sertão sobrenatural
Ê clarão das ribanceiras
Quem derrama seu luzeiro
Tem riqueza nesse fogo
Tem desgraça no roteiro
Quem se perde nas groteiras
Vendo a dama arredando
Vai deixando o próprio nome
Nos desvãos do recanto



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