Exibições da letra 3

O Crime do João de Barro

Astrikos Katoikos

No alto do galho, a casa surgia
Redonda e perfeita, pequena e sombria
Um belo abrigo contra a ventania
Mas era uma sentença que ninguém previa

João trabalhava com barro e argila
Construindo a morada, paciente e tranquila
Cada nova parede, soberba e sutil
Tornava o recinto mais estreito e hostil

A fêmea cantava, depois, não cantou
A porta se fechou, a manhã continuou
Um alvorecer, um céu claro, indiferente, brilhou
Naquele tronco uma vida lentamente cessou

Ninguém fez perguntas, ninguém viu o crime
A árvore guardava seu segredo sublime
O mundo seguia, remoto e sem apreço
Enquanto João de barro mudava de endereço

Chamavam de ninho, chamavam de lar
Mas lar sem saída começa a matar
E aquilo que outrora servia ao casal
Tornou-se, terrível, um muro mortal

João permaneceu sobre o mesmo arvoredo
Sem culpa aparente, sem glória, sem medo
Seu canto possuía a paz de um brinquedo
Enquanto a casa guardava o último segredo

Quem sabe fosse amor, na lógica do insano
Ou talvez fosse apenas o velho engano
Possuir uma vida, chamá-la de plano
E achar que o cárcere protege o humano

A morte chegou sem anjo, luz ou sinal
Sem juiz, sem carrasco, sem rito final
Somente uma porta, um quarto, um animal
E tudo lá fora, perpetuamente igual

Depois veio a tarde, depois veio o vento
Depois, sobre o ninho, passou outro tempo
Nenhum Deus desceu para um julgamento
Nenhuma estrela mudou seu movimento

João de barro, seu nome ficou
Mas ninguém sabe ao certo quem o senhor matou
Foi por ciúme? Foi por amor? Foi o senhor
Que chamou de abrigo aquilo que fechou?

E assim permanece, exposta no galho
A casa que um dia pareceu um trabalho
Bonita à distância, perfeita no entalho
Por dentro, o assassinato cumprindo seu malho

Casa de barro, pequena prisão
Amor transformado em possessão
Quando uma porta se fecha por alguém
O mundo insensível não pergunta a quem

Casa de barro, redonda e cruel
Debaixo da luz inclemente do céu
Ninguém foi condenado, ninguém foi punido
Só ficou o ninho, sepultando o fato esquecido


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