O Livreiro de Istambul

Astrikos Katoikos

Antes dos canhões do Sultão
Antes da Lua sobre o Corno de Ouro
Já pesavam nas suas prateleiras
Páginas mais caras que tesouros

Quando uma muralha tombou
Outra cidade surgiu
Mudou-se o nome das pedras
Somente o livreiro não partiu

Um judeu fugido da Espanha
Deixou-lhe um livro por gratidão
Nele havia uma receita antiga
Escrita pela própria mão

Cinco gerações da mesma família
Retornaram àquele lugar
Na folha já amarelada
Cada qual deixou seu assinar

Velho livreiro de Istambul
Quantos mundos conheceu?
Já viu tronos reduzidos ao esquecimento
Daquilo que sucedeu
Um livro aberto sobre a mesa
Vive mais do que quem o escreveu

Um capitão veneziano
Lhe vendeu um velho Plutarco
Levava fome no semblante
E nenhuma moeda no casaco

O velho lhe serviu um chá
Jamais falou sobre valor
Na última folha do volume
Há uma lágrima do comprador

Um jovem calígrafo armênio
Permaneceu durante um mês
Ao partir deixou-lhe uma pena
E um pequeno bilhete em francês

Até hoje está guardado na gaveta
A beleza possui muitos nomes
Há palavras que perduram a guerras
Há guerras menores que alguns homens

Um professor já quase cego
Procura sempre o mesmo lugar
Compra somente uma rosa seca
Para dentro do livro guardar

Há sessenta anos faz o mesmo
Ninguém conhece a razão
Talvez alguns rituais antigos
Dispensem qualquer explicação

Velho livreiro de Istambul
Conhecedor de todo o dicionário
Conhece reis esquecidos
Poetas sem destinatário

Sua obra jamais coube em papel
Sempre coube em seu espírito tão fiel


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