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Águas Barrentas

Bebeto Alves

Letra

    Que fome das águas barrentas, que sede dos temporais
    Um barco perdido, sem movimento, no balanço do cais
    Atravessando o abdômen as garras do tempo, um vão
    Pelo ralo do umbigo os retalhos da solidão

    As raízes pedras, os sonhos rasteiros mastigam
    Num salto o olhar arqueia o corpo pra trás
    O enjôo do cheiro da cor da memória
    O mar vomitando e engolindo as coroas dos funerais

    Frangalhos, nos galhos da vida
    Na sala dos bisturis, riscos de luz
    Respiram o azul os peixes antigos
    Milongas, guitarras, um céu andaluz

    De um jardim suspenso, as flechas em chamas
    Riscam teu nome e em meus dentes a dor dos metais
    Alumiadas no fogo as coisas são femininas
    Um universo queimando em mim até o nunca mais

    As cordas de aço no peito e algumas roupas cinzas
    Ao lado do forno secando junto aos animais
    O veneno e o antídoto correndo nas veias
    Me repousa leve, por favor, senão eu vou desabar

    Indo, assim pelo chão derramado
    Pelos buracos de mim, a lua e sua escuridão
    Invado a tua morada como chuva fina
    A casa vazia em teu peito, teu coração

    Frangalhos, nos galhos da vida
    Na sala dos bisturis, riscos de luz
    Respiram o azul os peixes antigos
    Milongas, guitarras, um céu andaluz

    De um jardim suspenso, as flechas em chamas
    Riscam teu nome e em meus dentes a dor dos metais
    Alumiadas no fogo as coisas são femininas
    Um universo queimando em mim até o nunca mais


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