24 de Junho de 2025, às 16:50
Quando se fala nas principais músicas nacionais dos anos 80, é impossível não se lembrar da obra de Cazuza.
Em sua breve carreira, o cantor e compositor carioca foi responsável por grandes hits que marcaram toda uma geração.

O Tempo Não Pára, parceria entre Cazuza e Arnaldo Brandão, é um dos maiores sucessos do artista.
Abordando, ao mesmo tempo, sua batalha pessoal contra a AIDS e a situação política do país, a faixa de 1988 é uma obra-prima que permanece atual.
Uma das últimas músicas escritas e lançadas por Cazuza, O Tempo Não Pára foi gravada ao vivo durante um show no Rio de Janeiro e integra o álbum de mesmo nome.
Vamos ver o que cada estrofe significa?
Disparo contra o Sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
A música começa com um desabafo de revolta e impotência.
Ciente de que havia contraído um vírus fatal, ainda sem tratamento eficaz na época, Cazuza reconhece estar armado com uma metralhadora cheia de mágoas, mas atira contra o sol. Em outras palavras, por mais raiva que carregue, ele sabe que se rebelar é inútil.
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
O autor se descreve como mais um cara: um sujeito comum, exausto de lutar tanto contra algo sem ver resultados.
Essa estrofe pode ser interpretada como um reflexo das inúmeras internações de Cazuza e de suas viagens aos Estados Unidos em busca de uma cura para a AIDS.
Ao mesmo tempo, também expressa o desgaste do cidadão brasileiro, cansado de nadar contra a corrente sem conquistar vitória alguma.
Mas, se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para
Nessa estrofe, Cazuza alfineta a imprensa, que publicava matérias sensacionalistas sobre o seu estado de saúde, tratando-o como alguém já condenado à morte.
Ao dizer que ainda estão rolando os dados, ele afirma que não há como prever o futuro e que acredita em uma chance de cura.

Além disso, de acordo com a mãe do cantor, Lucinha Araújo, esses versos também refletem o contexto político do Brasil na época: os anos Sarney, logo após o fim da ditadura.
Para Cazuza, ainda havia a esperança de um país melhor, mas apenas o tempo diria.
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
Aqui há mais uma alfinetada de Cazuza: quando fala sobre a caridade de quem me detesta, ele critica a hipocrisia de pessoas que, apesar de não gostarem dele, demonstram compaixão apenas por sua doença.
Vale lembrar que Cazuza rejeitava a piedade alheia publicamente. Ele chegou a insultar o público durante seu último show, em Recife, por medo de que as pessoas sentissem pena dele.
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Em uma entrevista de 1989, Cazuza afirmou que essa estrofe carrega uma mensagem de esperança: a de que o tempo venceria.
A piscina, um símbolo associado à riqueza e ostentação de poderosos e corruptos, ficaria cheia de ratos.
Para o cantor, esse cenário sinalizava que o lado sujo da política brasileira viria à tona e, com o tempo, seria enfrentado, abrindo caminho para algo novo e melhor.
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não pára, não, não para
Reforçando a ideia de que a passagem do tempo é inevitável (e desejável), o autor nos lembra de que a história sempre acaba se repetindo, em versos que hoje podem ser considerados até proféticos.
Esta é a ideia presente no museu de grandes novidades: aquilo que surge como uma promessa de novidade, mas que não passa de uma releitura de algo velho.
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha num palheiro
Retomando o tom mais íntimo do início da canção, a letra volta a focar nos sentimentos pessoais do autor.
Aqui, a revolta dá lugar à apatia e ao tédio: debilitado por uma doença incurável e vivendo em um país atravessado por crises, ele sente que não há motivos para celebrar.
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: É matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Seja nas noites de frio, quando a desesperança pesa mais, ou nas noites de calor, que talvez tragam um sopro de motivação, o resultado é sempre o mesmo: batalha e sofrimento.
É dessa luta diária contra as adversidades que se molda o povo brasileiro.
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
Em versos duros e diretos, Cazuza expõe as ofensas dirigidas a quem desafia os padrões sociais — especialmente artistas, frequentemente alvo de preconceito e censura durante o regime militar e, posteriormente, no governo Sarney.

Ele ainda deixa explícito que, enquanto sofre acusações, o país vai sendo explorado e vendido para satisfazer a ganância dos poderosos.
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Vale mencionar que algumas pessoas relacionam o verso a tua piscina tá cheia de ratos a uma situação que teria acontecido com o cantor.
Segundo relatos, ele teria sido discriminado e impedido de utilizar uma piscina pública após ter assumido publicamente que era soropositivo.
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não pára, não, não para
A canção pode ser entendida como a resposta de Cazuza às críticas que sofria por seu modo de vida e também ao conservadorismo brasileiro da época em que viveu.
No fim, a mensagem que permanece é clara: cedo ou tarde, a mudança acontece — afinal, o tempo não para.
Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, nasceu no Rio de Janeiro em 4 de abril de 1958.
Filho do produtor fonográfico João Araújo e da cantora Lucinha Araújo, cresceu convivendo com grandes artistas da música brasileira.

Alcançou a fama no início dos anos 80 como vocalista e letrista do Barão Vermelho.
Em 1985, iniciou sua carreira solo, lançando o aclamado álbum Exagerado. Músicas como Codinome Beija-Flor e Exagerado colocaram o cantor no topo das paradas.
Considerado um dos maiores ídolos do rock brasileiro e ícone de sua geração, teve a carreira encurtada ao descobrir ser soropositivo em 1987. Mesmo doente, Cazuza não deixou de gravar e fazer shows.
Assumiu publicamente sua doença em 1989. No entanto, perdeu a batalha contra a AIDS e veio a falecer em 7 de julho de 1990, aos 32 anos. 💔
Agora que você leu a análise da música O Tempo Não Pára, que tal fazer uma viagem musical pela história do Cazuza? Aumente o volume e aproveite!


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