O Menino da Porteira: a história por trás do clássico do sertanejo

Analisando letras · Por Dora Guerra

26 de Março de 2020, às 19:00

Gravada originalmente em 1955, O Menino da Porteira é uma das músicas mais tradicionais do sertanejo raiz. Desde então, foi regravada inúmeras vezes, virou um filme e é um clássico com uma história e tanto. 

Cena do filme O Menino da Porteira
Cena do filme O Menino da Porteira, de 2009 / Créditos: Divulgação

Mas qual é a história por trás da música? Afinal de contas, é baseada em fatos reais ou não? E o que fez O Menino da Porteira virar um clássico? 

Com tanta mística em torno da canção, vamos falar um pouco sobre como a música foi composta, sobre a história que ela conta e analisar o significado da letra. Vem com a gente!

A história da música O Menino da Porteira

O Menino da Porteira é considerado um cururu, ou seja, possui um ritmo bastante caipira, baseado em letras poéticas e no som de violas caipiras (às vezes, até de batidas de pé). Foi composta por Teddy Vieira e Luis Raimundo e gravada pela primeira vez por Luizinho e Limeira.

Depois, virou uma gravação até frequente: Tonico e Tinoco, Sérgio Reis, Tião Carreiro e Pardinho, Daniel e Michel Teló são só alguns dos nomes que já fizeram sua versão da música. A história ainda rendeu dois filmes, um de 1976 e um de 2009. 

O Menino da Porteira estátua
Estátua do Menino da Porteira em Ouro Fino, MG / Créditos: Divulgação

E a história que a letra conta, hein? Bom, dizem que a inspiração veio de uma das viagens de Teddy Vieira ao sul de Minas, perto da cidade de Ouro Fino (que é mencionada na música). Numa de suas travessias, Teddy viu um menino, que abriu e fechou uma porteira pra ele em sua passagem. 

A história do menino da porteira é real ou não?

Bom, na verdade, o resto da história foi criada pelo compositor, que usou o garoto daquele dia como protagonista da narrativa de sua música. Ou seja, a letra não é totalmente real!

Segundo um amigo do compositor, as músicas de Teddy Vieira eram como fábulas, sempre com uma moral por trás. Por isso, ele se inspirou na curta cena que viu e tornou-a uma história marcante. 

Independente disso, não deixa de ser uma grande história contada na canção. O triste é que Teddy não chegou a ver sua música se tornando um clássico e morreu passando por dificuldades financeiras, em 1965. Hoje, o compositor tem uma estátua em Itapetininga – SP, sua cidade natal. 

Estátua de Teddy Vieira
Estátua do compositor Teddy Vieira / Créditos: Divulgação

Afinal, foi a versão de Sérgio Reis, gravada em 1973, que fez da música um grande hino do sertanejo.

O significado da letra de O Menino da Porteira

Mas no fim das contas, qual é a narrativa da música? Vamos contar um pouco dela aqui:

Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino
De longe eu avistava a figura de um menino
Que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo
Toque o berrante, seu moço, que é pra eu ficar ouvindo

Aqui é a parte baseada em fatos reais, né? Ali perto de Ouro Fino, em Minas Gerais, o compositor passeava e chegou a avistar um menino, que lhe abriu e fechou a porteira. 

Na área rural, é comum ter porteiras entre uma residência e outra. Quando você vai passar de carro ou cavalo, por exemplo, tem que descer, abrir, passar da porteira e fechar. Por isso, às vezes você pede outra pessoa do lado de fora para abrir. 

Porteira
Créditos: Divulgação

Já a parte do berrante provavelmente foi criada por Teddy, que queria mostrar mais um lado do menino. E fica bonito: o pequeno garoto gosta do som do berrante e fica feliz de poder ouvi-lo.

Quando a boiada passava e a poeira ia baixando
Eu jogava uma moeda e ele saía pulando
Obrigado, boiadeiro, que Deus vá lhe acompanhando
Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando

Apesar de não terem uma relação tão próxima, o narrador e o menino compartilhavam um momento singelo. Além disso, é interessante como a história é bem contada e descritiva, né? Dá pra imaginar perfeitamente a cena do menino grato pela interação rápida que tem com o boiadeiro.

Nos caminhos desta vida muitos espinhos eu encontrei
Mas nenhum calou mais fundo do que isso que eu passei
Na minha viagem de volta qualquer coisa eu cismei
Vendo a porteira fechada, o menino não avistei

Agora a narrativa fica mais tensa e cria um certo suspense. Se o menino não está lá na porteira, o que pode ter acontecido? E se machucou tanto o narrador… será que foi algo muito pesado?

Ah, e um detalhe: reparou a preocupação do compositor em ser poético, como um trovador? São versos longos e dá pra ver claramente a diferença entre estrofes, porque cada estrofe tem uma mesma rima para todos os versos. Ou seja, tinha um cuidado estético apurado por parte de quem compôs (que é um sinal da época, também).

Apeei do meu cavalo e no ranchinho à beira chão
Vi uma mulher chorando, quis saber qual a razão
Boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão
Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração

Triste, né? A história é uma tragédia de roça e tem esse momento bastante emocionante. O gado, sem dó, tinha tirado a vida do pequeno menino e agora a mãe sofria em seu lugar.

Cruz na estrada
Créditos: Divulgação

Lá pras bandas de Ouro Fino levando gado selvagem
Quando passo na porteira até vejo a sua imagem
O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem
Daquele rosto trigueiro desejando-me boa viagem

Assim, vemos que o narrador sente a falta do menino, mesmo não tendo muita relação com ele. Não tem como não ficar triste pelo pequeno garoto e sua família. Sempre que passa por Ouro Fino, o boiadeiro lembra do menino da porteira.

A cruzinha no estradão do pensamento não sai
Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais
Nem que o meu gado estoure, que eu precise ir atrás
Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais

Chateado com a tragédia, o boiadeiro leva consigo essa convicção: o berrante tinha que ser tocado para o menino. Por isso, ele jura que não tocará mais o berrante por aquelas terras

A história do sertanejo

Como é forte a letra, né? Quando a gente fala de um clássico do sertanejo, estamos falando de um clássico da música brasileira, que já emocionou muita gente. 

O gênero, que veio do interior e das violas tocadas em pequenas fazendas, é uma parte importante da cultura do Brasil. Se você não foi marcado pelo sertanejo, com certeza conhece gente que é apaixonada até hoje. Desde o raiz até o sertanejo universitário, é um gênero que toca muita gente Brasil afora.

Por isso, a gente fez uma seleção de clássicos do sertanejo ao longo da história do gênero. Por que não celebrar aquele modão, hein? Bota a história do sertanejo pra tocar e seeeente aquela viola!

A história do sertanejo