Chuva de Honestidade: descubra a polêmica e a história por trás da música

Analisando letras · Por Rafaela Damasceno

24 de Novembro de 2020, às 12:00

Você talvez não conheça o cantor Flávio Leandro, mas pode ser que já tenha ouvido uma de suas composições.

Ele é famoso por criar canções para artistas consagrados da música brasileira, principalmente do nordeste. 

Flávio Leandro
Créditos: Divulgação

Mas foi com Chuva de Honestidade que ele ganhou mais reconhecimento. Interpretada por ele mesmo, a canção gerou bastante polêmica nas últimas eleições e não saiu da boca do povo após ser usada na campanha do atual presidente, Jair Bolsonaro.

Se você se lembra desse caso ou se ficou curioso para descobrir o que aconteceu, saiba que isso é pouco perto da história da música. Vem saber mais sobre Chuva de Honestidade!

A história da música Chuva de Honestidade

Chuva de Honestidade foi composta por Flávio Leandro em 2013 para dar voz à revolta do povo nordestino em relação à seca da região.

Ao analisarmos a letra, é possível perceber todas essas nuances que nos deixam por dentro de toda essa situação alarmante que vive o nordeste brasileiro. Olha só:

Quando o ronco feroz do carro pipa
Cobre a força do aboio do vaqueiro
Quando o gado berrando no terreiro
Se despede da vida do peão

O clima do nordeste é semiárido, o que significa que as chuvas são escassas e mal distribuídas. Ou seja, em alguns locais chove muito, mas em outros, não chove nada.

Clima semiárido
Clima semiárido / Créditos: Divulgação

Por esse motivo, os governantes costumam recorrer a carros pipa para abastecer essas áreas mais secas. No primeiro verso da canção, essa realidade é abordada.

Além disso, temos também a figura do vaqueiro. No imaginário nordestino, ele está presente como um homem forte, que enfrenta a miséria e as altas temperaturas para defender o seu rebanho. De forma poética, o cantor conseguiu transmitir muito bem essa mensagem.

Quando verde eu procuro pelo chão
Não encontro mais nem mandacaru
Dá tristeza ter que viver no Sul
Pra morrer de saudades do sertão

A caatinga é a vegetação típica da região trabalhada na música e tem a sua flora específica. O mandacaru é uma das plantas que nascem ali, uma espécie de cacto, que se adapta a longos períodos de seca. 

Mandacaru
Mandacaru / Créditos: Divulgação

Também percebemos aqui uma referência histórica: a migração ocorrida no século XX, em que diversos nordestinos saíram de suas cidades para buscar oportunidades no sul do Brasil. E, é claro, esses imigrantes logo se identificam com o verso pra morrer de saudades do sertão.

Eu sei que a chuva é pouca e que o chão é quente
Mas tem mão boba enganando a gente
Secando o verde da irrigação

É nesta estrofe que Flávio Leandro denuncia a “indústria da seca”, em que políticos se aproveitam da situação de miséria do nordeste para beneficiar grandes fazendeiros, deixando de lado a população mais pobre. 

Não, eu não quero enchentes de caridade
Só quero chuva de honestidade
Molhando as terras do meu sertão

O pedido de “chuva de honestidade”, que dá nome à canção, é feito em nome de todo esse povo, que sofre não só com o clima semiárido, mas também com a corrupção e a desonestidade dos seus representantes no governo. 

Esse trecho também faz referência ao programa Frentes de Emergências, desenvolvido em 1877 e que perdurou por muitos anos, até 1945. A partir dele, obras de infraestrutura eram realizadas para combater a estiagem na região, utilizando a mão de obra local. 

Eu pensei que tivesse resolvida
Essa forma de vida tão medonha
Mas ainda me matam de vergonha
Os currais, coronéis e suas cercas

Outro problema gritante no nordeste é a alta concentração de terras mal distribuídas. Assim, os grandes latifundiários empregam as pessoas mais carentes por baixos salários e condições de vida muito precárias.

O questionamento de Flávio Leandro compara a situação dessas famílias à escravidão que, apesar de abolida no Brasil há mais de 130 anos, ainda se perpetua, em outros formatos, nas regiões mais pobres do país. 

Eu pensei nunca mais sofrer da seca
No Nordeste do século vinte e um
Onde até o voo troncho de um anum
Fez progressos e teve evolução

No século XXI, vivenciamos a revolução técnico-científica, em que a produção industrial tem ficado cada vez mais tecnológica e evoluída. No entanto, esse avanço ainda não chegou para os nordestinos.

Israel é mais seco que o Nordeste
No entanto se investe de fartura
Dando força total à agricultura
Faz brotar folha verde no deserto

Dá pra ver que o desmando aqui é certo
Sobra voto, mas, falta competência
Pra tirar das cacimbas da ciência
Água doce que regue a plantação

Nesta última estrofe, temos uma comparação entre Israel e o nordeste brasileiro. Os climas dessas duas regiões são muito semelhantes, porém, os israelenses não sofrem tanto com a seca, porque o país investe muito em tecnologias que favorecem as plantações. 

Nesse sentido, a produção é realizada com menos dificuldades do que aqui no Brasil. E, embora Israel não tenha um território muito vasto e seja menor que o estado do Ceará, é possível aprender com as suas descobertas na agricultura. 

Logo, percebemos que, além da seca que assola o nordestino há muitos anos, ainda temos um impasse muito maior a ser resolvido: a corrupção.

Para isso, são necessárias mudanças de atitudes e de mentalidades. Compreender tudo isso e, melhor ainda, cantar esses ideais, já é um grande passo para o futuro que queremos!

A polêmica envolvendo a música

Você deve ter acompanhado todo o processo eleitoral de 2018. Um dos candidatos era o atual presidente, Jair Bolsonaro. Para promover a sua campanha, ele utilizou Chuva de Honestidade em suas redes sociais.

Segundo ele, a letra da música seria um verdadeiro retrato da cena política brasileira. Bolsonaro, inclusive, já citou novamente a canção, depois de eleito, em uma entrevista concedida em 2019.

Bolsonaro
Créditos: Divulgação

Quem não gostou nada disso foi Flávio Leandro: na época, o compositor não autorizou o uso de Chuva de Honestidade para essa finalidade. 

Mas as polêmicas não pararam por aí. Em 2019, o artista resolveu processar um internauta que gravou um vídeo para o YouTube desacreditando da autoria da música.

A trajetória de Flávio Leandro

Flávio Leandro nasceu em 1969, em Bodocó, no interior de Pernambuco. Iniciou a sua carreira na música muito jovem, aos 13 anos, influenciado e apoiado por amigos.

Em 1985, participou do festival Sementes da Terra, em que ganhou visibilidade do público ao interpretar canções de sua autoria. Aos poucos, foi ficando mais conhecido, principalmente por seu trabalho como vocalista da banda Raio de Laser, que integrou a partir de 1992.

Flávio Leandro
Créditos: Divulgação

Anos mais tarde, lançou seu primeiro CD solo, Travessuras. Depois dele, vieram muitos outros. Sem falar das composições que ele criou para artista super renomados no cenário musical brasileiro, como Elba Ramalho, Flávio José, entre outros. É ou não é um artista completo?

O significado de mais uma nordestina

Chuva de Honestidade pode ser considerado um verdadeiro grito de guerra da população do nordeste brasileiro, contra a seca e a corrupção.

Mas existe uma canção que é ainda mais importante para essa região: saiba agora o significado de Asa Branca, de Luiz Gonzaga!

significado asa branca