8 de Setembro de 2025, às 17:10
A história da música Mônica, sucesso de Angela Ro Ro, é marcada por uma tragédia que marcou o século XX e traz à tona a discussão sobre a violência contra as mulheres e o feminicídio.
Os já conhecidos graves da cantora de voz rouca, nascida Angela Maria Diniz Gonçalves, acompanham uma letra densa, com referências a crimes que chocaram a sociedade brasileira e sua inconfundível qualidade de composição.

A faixa, lançada no álbum Eu, Desatino (1985), foi um marco na carreira da artista, considerada uma das maiores vozes da música brasileira e precursora do movimento LGBTQIA+ no Brasil.
Vem conhecer o significado, as referências e a história da música Mônica, de Angela Ro Ro!
Desde o começo da carreira, em meados dos anos 1970, Angela Ro Ro soou como dissonante na conservadora sociedade brasileira em plena ditadura militar. E isso não se deve apenas à rouquidão de sua voz.
Primeiro ícone da música brasileira a se assumir abertamente lésbica, desprezando rótulos mais socialmente aceitos, como “livre” ou “bissexual”, a artista se destacou desde cedo como uma brilhante compositora.
Em suas letras, são recorrentes temas mundanos, como a fogueira das paixões e seu humor por vezes ferino — assim como assuntos delicados e complexos, como mostra com clareza a história da música Mônica, de Angela Ro Ro.
Depois de estourar com sucessos como Amor, Meu Grande Amor e Gota de Sangue, em 1979, a cantora entrou no que se considera a segunda fase de sua carreira, com um tom mais político que antes.
A artista, ícone da MPB que “tudo sentiu, disse e fez”, como canta em Não Há Cabeça, trouxe para sua então nova composição o horror cotidiano vivenciado pelas mulheres brasileiras, em um ciclo de violência, abuso e medo.
Afinal, antes de mais nada, a história da música Mônica, de Angela Ro Ro, é de revolta, justiça e tristeza.
Garota, não vá se distrair
E acreditar que o mundo vive
A inocência desse teu olhar
Você se engana e se dá mal
Logo na primeira estrofe, a cantora, que ganhou o apelido ainda na infância pela voz rouca, parece alertar as ouvintes sobre a verdadeira faceta da sociedade em relação às mulheres.
A “garota” à qual a artista se refere é Mônica Granuzzo, uma jovem de 14 anos que acabou vítima de um perverso crime na Zona Sul do Rio de Janeiro, em junho de 1985. A garota conheceu um rapaz de 21 anos em uma boate que frequentava e aceitou sair com ele para comer uma pizza.

Atraída por uma mentira, aceitou acompanhar o modelo Ricardo Peixoto Sampaio até seu apartamento, onde acabou espancada e arremessada do sétimo andar pelo agressor e seus comparsas.
Morreu violentada por que quis
Saía, falava, dançava
Podia estar quieta e ser feliz
Calada, acuada, castrada
O crime, que chocou o Brasil, só foi descoberto no dia seguinte, quando encontraram o corpo da menina em um barranco, e gerou um intenso debate na sociedade, com parte da população a culpar a vítima pelo crime.
Para atrair a menina até seu apartamento, Ricardo mentiu sobre morar com os pais e disse que queria buscar um casaco. Ao chegar ao prédio, Mônica se deparou com outros dois jovens, Alfredo Patti do Amaral e Renato Orlando Costa, que se tornaram cúmplices de seu assassino.
O trio tentou estuprar a menina, que reagiu às investidas. Diante do fracasso em consumar a violência sexual, os homens torturaram e espancaram Mônica, que, em seguida, foi arremessada da varanda do apartamento, no sétimo andar.

Ricardo, Alfredo e Renato removeram o corpo de Mônica do parquinho do prédio, higienizaram a área e enrolaram a vítima em um lençol. Na sequência, desovaram o corpo às margens da Estrada Dona Castorina, onde foi encontrado.
Agora não dá mais para sonhar
O seu diário na TV
Não há segredos mais pra ocultar
Angela Ro Ro lembrou que a vítima, que sofreu tantos julgamentos e ataques machistas mesmo após sua violenta morte, era apenas uma menina, com todo um futuro pela frente.
A cantora também abordou as alegações dos acusados do crime, que afirmaram à Justiça que Mônica Granuzzo teria mentido sobre sua identidade e idade. No entanto, nunca conseguiram provar essa versão.
Todos vão saber que era criança
E que amava muito os pais
Que tinha um gato e outros pecados mais
E segue mais uma vez para o refrão, lembrando que nem mesmo a memória da vítima de um crime tão hediondo foi poupada dos ataques da sociedade.
A tragédia de Mônica Granuzzo não é a única que faz parte da história da música Mônica, de Angela Ro Ro. A cantora e compositora também fez questão de citar outros crimes contra mulheres que marcaram o Brasil.
Aída Curi era rock
Araceli balão mágico
Cláudia Lessin a geração de Reich
A história de Aída Jacob Curi vem à tona pelas similaridades com o crime cometido contra Mônica. Assim como a menina do Rio de Janeiro, a jovem de 18 anos foi violentada e arremessada do 12º andar de um edifício, em 1958.

O crime chocou o Brasil na época, e acabou relembrado após o assassinato de Mônica. Além de Angela Ro Ro, Rita Lee também citou o caso em sua música Todas as Mulheres do Mundo.
A segunda referência é a de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, uma menina de 8 anos que foi violentada, estuprada e assassinada em 1973, em Vitória, no Espírito Santo.
A história se repete, mais uma vez, com o caso Cláudia Lessin, uma jovem de 21 anos que teve um fim trágico nas mãos de um milionário suíço-brasileiro.
A história da música Mônica, de Angela Ro Ro, gira em torno de crimes violentos e que envolvem abuso sexual cometidos por homens contra meninas e mulheres muito jovens.
Em comum, todos eles têm a impunidade: todos os assassinos foram condenados, mas voltaram à liberdade pouco tempo depois da sentença.
Enquanto lista as tragédias às quais as mulheres já pareciam ter se acostumado, a cantora lembrou de tudo aquilo que as vítimas poderiam ter sido.
O que eu não vou classificar
É a dor do pai, a dor da mãe
Que ela poderia ser, mas não vai
E continua, clamando por justiça em sua mais pura forma, com punição real àqueles que ousam investir contra mulheres de todas as classes, cores e origens.
Queremos o seguinte no jornal
Quem mata menina se dá mal
Sendo gente bem ou marginal
Quem fere uma irmã tem seu final
Um hino atemporal sobre a brutalidade e o feminicídio, que se mantém atual até os dias de hoje, com uma letra visceral e vocais impecáveis que carregam a assinatura inconfundível de Angela Ro Ro.
Gostou de conhecer a história da música Mônica, de Angela Ro Ro? A cantora foi considerada uma das precursoras do movimento LGBTQIA+ no Brasil.
Vem conhecer um pouco mais sobre o trabalho da estrela e de outros artistas LGBTQIA+ brasileiros para ouvir com orgulho!





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