21 de Fevereiro de 2025, às 12:00
As escolas de samba de São Paulo têm uma tradição antiga de apresentações inesquecíveis. E, se depender do samba-enredo da Mocidade Alegre em 2025, neste ano não será diferente.

Bicampeã do Carnaval de São Paulo, a Mocidade Alegre escolheu o samba-enredo Quem Não Pode Com Mandinga Não Carrega Patuá para competir em 2025 e lutar pelo tricampeonato. O enredo contará a história dos patuás e dos objetos religiosos que fazem parte da fé e da cultura brasileira, como terços, balangandãs e guias.
Se você já está preparando sua torcida para o Carnaval 2025, confira a seguir a nossa análise completa sobre o samba-enredo da Mocidade Alegre. Não perca!
Na festa organizada pela Mocidade Alegre, no dia 01 de outubro de 2024, na Arena Morada do Samba, a escola de samba anunciou o enredo escolhido para representá-la no Carnaval 2025.
O vencedor foi o tema Quem não pode com mandinga não carrega patuá, criado pela dupla de carnavalescos Jorge Silveira e Caio Arjo.
A pesquisa e concepção do enredo ficou por conta de Leonardo Antan e o samba-enredo foi criado com a participação de Augusto Santos, Ana Clara Gaspar, Egydio, Glória, Lara Passos, Li Bombom, Jessica Americo e Rosana Silva.
A composição da letra do samba-enredo é de autoria de Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinicius, Marcio André, Salgado Luiz, Daniel Goulart, André Aleixo, Fabian Juarez, Leandro Flecha, Tomageski, Beto Colorado e Chico Maia, com a participação especial de Eder Miguel.
A temática da religiosidade não aparecia nos enredos da Mocidade Alegre há quase 10 anos. Agora em 2025, o foco maior são as religiões de matriz africana e os objetos que as representam desde o passado até o presente em nosso país.
O objetivo da escola é trazer proteção para o Sambódromo do Anhembi e incentivar reflexões sobre o respeito às crenças e à negritude.
O ponto de partida para a criação do samba-enredo da Mocidade Alegre em 2025 foi a bolsa de mandinga, introduzida, em nosso país, por africanos islamizados durante o período colonial. É um pequeno objeto, que na época guardava orações do alcorão, para oferecer proteção a quem o carregava. Hoje, ele foi se transformando até mesmo em acessórios de moda.
O problema é que, no Brasil Colônia, as pessoas que levavam a “bolsa de mandinga” eram maltratadas pelos portugueses e acusadas de fazer “feitiçaria”. Até hoje inclusive a palavra “mandinga” costuma ser dita de forma pejorativa, como se fosse uma espécie de maldição.
Então, desde esses povos islâmicos até as baianas que fazem parte da Mocidade Alegre hoje em dia, a escola de samba vai narrar e honrar um dos capítulos que formam o sincretismo religioso brasileiro.
Além disso, também vai celebrar as recriações dos africanos, durante a sua dispersão pelo país. Assim, a escola de samba traz um enredo que ressalta a importância da ancestralidade, da fé e da resistência negra.
Na primeira estrofe do samba-enredo, a Mocidade Alegre anuncia a sua celebração para o Carnaval de 2025, com palavras que remetem à religiosidade, como fé e axé. A figura do patuá também aparece nesse trecho, como símbolo de proteção.
Firma o batuque, ecoa um canto de fé!
Mocidade é negritude, axé!
É corpo que arrepia
A força a nos guiar
Quem não pode com a Morada, não carrega patuá
Em seguida, a escola deixa claro que religião e negritude estão conectadas no enredo de 2025. A escola de samba ressalta o quanto as práticas religiosas afro-brasileiras fizeram parte da construção da nossa crença.
Apesar disso, infelizmente, esses elementos são estigmatizados e acabam se tornando alvo de muito preconceito na sociedade. Macumba e feitiço são palavras que remetem a algo negativo no senso comum, mas, em sua origem, são sinônimo de proteção.
Por isso, a Mocidade Alegre reforça que desmistificar essa visão é essencial para combater a intolerância religiosa.
Outra referência interessante da letra é Mali, país da África Ocidental, onde há grande predominância de africanos islamizados. Há também uma menção ao opelê-ifá, instrumento de adivinhação na religião iorubá.
É coisa de preto!
Mistério e magia
Herança do legado ancestral
Abrigo de cada oração
Sinônimo de proteção
Macumba trazida no peito
Feitiço nas mãos
Em Mali o povo eternizou
Rosário trouxe opelê-ifá
A chama não se apagou e reexistirá!
Na vida, é preciso acreditar
Nas estrofes seguintes, o samba-enredo da Mocidade Alegre continua a exaltar detalhes da religiosidade africana, com o gingado, os balangandãs e a gira baiana. E é clara ao afirmar que não vai aceitar nenhum tipo de intolerância.
O gingado atrevido exala da cor
Tem mandinga nas ruas de São Salvador
Os balangandãs, pra enfeitar, abençoar
Chega de esconder!
Não vamos aceitar
A face da cruel ignorância
Gira baiana, evoca os ancestrais
Derrota a intolerância!
Nossa família, imenso cordão
Enfim, chegou a hora
Fé, na terça, o terço na mão
É, o dia da consagração
Dez! Mais uma estrela no pavilhão
Dessa forma, a escola de samba de São Paulo leva à avenida uma belíssima homenagem às religiões de matriz africana que chegaram ao Brasil durante o período colonial e fizeram morada no coração e na alma dos brasileiros.
Ainda que a pessoa não siga uma religião como umbanda ou candomblé ou não conheça sua origem, ela certamente já entrou em contato ou até mesmo já usou símbolos dessas crenças. É o caso dos patuás, muito populares até hoje e que são usados para trazer proteção de diversas formas.
Por fim, mesmo com as tentativas de apagamento e opressão das crenças de raízes africanas, elas se mantiveram vivas e fortes, passando de geração em geração. É uma demonstração de que a força coletiva e a resistência cultural são armas poderosas para a luta da cultura e da fé.
Agora que você já conhece o samba-enredo da Mocidade Alegre em 2025, já pode preparar a torcida, no clima do Carnaval. E pode aproveitar também para relembrar as melhores músicas dos carnavais passados, que continuam a fazer sucesso até hoje.





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