12 de Fevereiro de 2025, às 12:00
O Carnaval já está chegando e, para celebrar a ocasião, vamos te mostrar uma análise completa do samba-enredo da Unidos de Padre Miguel em 2025.
Após 52 anos de espera, a agremiação da Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, retorna ao Grupo Especial do Carnaval carioca em grande estilo, com o enredo Egbé Iyá Nassô, uma homenagem ao primeiro terreiro de candomblé do Brasil.

Conduzido pelos carnavalescos Alexandre Lousada e Lucas Milato, o samba exalta a resistência do povo negro e a força das mulheres africanas na preservação da fé na celebração da ancestralidade. Continue lendo para saber mais!
A espera foi longa, mas a Unidos de Padre Miguel está de volta com pompa e circunstância ao grupo de elite do Carnaval do Rio de Janeiro após uma espera de mais de cinco décadas.
O enredo Egbé Iyá Nassô vai levar à Sapucaí uma celebração da ancestralidade africana e da resistência do povo negro no Brasil, com uma homenagem aos 200 anos da Casa Branca do Engenho Velho, o primeiro terreiro de Candomblé do país.
Antes de partir para a análise do samba-enredo da Unidos de Padre Miguel em 2025, vale a pena saber quem, afinal, foi Iyá Nassô, homenageada pela canção.
Iyá Nassô foi uma figura essencial para a preservação e a disseminação das religiões de matriz africana, sobretudo do candomblé, uma das expressões mais fortes da cultura afro-brasileira.
A religião nasceu da resiliência dos povos africanos trazidos à força para o Brasil durante a escravidão. Proibidos de praticar suas crenças, os escravizados encontraram nas casas de santo um refúgio, onde puderam manter suas tradições e cultuar seus orixás.
Nesse contexto, Iyá Nassô foi uma grande líder espiritual e cultural, sendo reconhecida pela tradição como a fundadora do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca do Engenho Velho, localizado em Salvador, na Bahia.
O terreiro, considerado berço do Candomblé no Brasil, se firmou na história como um símbolo de resistência e fé, além de referência na preservação dos saberes ancestrais.
O enredo da Unidos de Padre Miguel resgata a história dessa grande sacerdotisa, retratando sua coragem ao enfrentar desafios para proteger sua fé e sua comunidade.
Reza a tradição que Iyá Nassô, uma princesa negra escravizada, não se curvou às imposições do sistema opressor. Ao lado de suas irmãs de santo, ela desafiou a guarda imperial para libertar seus filhos, tornando-se um símbolo da luta das mulheres negras.
Além de contar essa história de luta e resistência, a escola também propõe uma reflexão sobre o protagonismo feminino nas religiões de matriz africana. No candomblé, as mulheres sempre ocuparam posições de liderança como mães de santo e guardiãs do conhecimento.
A Unidos de Padre Miguel tomou uma decisão histórica para o Carnaval de 2025: a junção de dois sambas para compor sua obra final, simbolizando a união na comunidade do samba.
O resultado é um samba-enredo poderoso, que traduz com fidelidade a essência da ancestralidade, força da comunidade, resistência negra e protagonismo feminino no Candomblé.
A composição coletiva traz um time talentoso de poetas do samba, com Thiago Vaz, W. Corrêa, Richard Valença, Diego Nicolau, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Miguel Dibo, Cabeça Do Ajax, Chacal do Sax, Julio Alves, Igor Federal, Caio Alves, Camila Myngal, Marquinhos, Faustino Maykon e Claudio Russo.
A inspiração para o samba-enredo Egbé Iyá Nassô surgiu após uma visita ao Terreiro da Casa Branca (também conhecido como Ilê Axé Airá Intilê ou Candomblé da Barroquinha), em Salvador.
O encontro fortaleceu a conexão entre a agremiação e a ancestralidade que o samba irá retratar na avenida.
A divulgação do enredo foi feita em uma data caprichosamente selecionada: o Dia das Mães de 2024, já que “Iyá” significa “mãe” no idioma yorubá. Além disso, também é mais uma homenagem a Iyá Nassô, a “mãe de todos os terreiros”.
O samba-enredo de 2025 promete ser um dos mais marcantes da história da Unidos de Padre Miguel graças a seus versos que exaltam a fé, a luta e a tradição do povo negro, celebrando com grandeza o retorno da escola ao Grupo Especial.
A obra é rica em simbolismo, trazendo uma profunda celebração da cultura afro-brasileira e das tradições do candomblé ao evocar elementos religiosos, históricos e sociais, destacando a ancestralidade e a resistência do povo negro.
Desde os primeiros versos, percebe-se a reverência às entidades espirituais do candomblé. A saudação a “Ayabá”, por exemplo, faz referência a Oxum e outras iabás (orixás femininas), estabelecendo o tom sagrado da composição.
Além disso, a menção às “águas de Oxalá” simboliza a purificação e a busca pela harmonia, enquanto “Justiça de Ògòdò” faz alusão a Xangô, orixá da justiça e do fogo.
Gira a saia, ayabá
Traz as águas de Oxalá
Justiça de Ògòdò
Tambor guerreiro firma o alujá
A composição também ressignifica aquilo que já foi utilizado de forma pejorativa contra as comunidades afro e as religiões de matriz africana, como a palavra “macumbeiro”, reafirmando o orgulho das práticas religiosas do povo preto.
Isso tudo serve de introdução para a celebração de Iyá Nassô, personagem central na letra, que é exaltada como “rainha do candomblé” e líder espiritual.
Awurê obá kaô, awurê obá kaô
Vila Vintém é terra de macumbeiro
No meu egbé, governado por mulher
Iyá Nassô é rainha do candomblé
As estrofes seguintes trazem toda a força dos orixás para a Sapucaí. Xangô, por exemplo, é honrado com expressões como ”kaô kabecilê” (saudação ao orixá), enquanto “couraça de fogo no orô do velho ajapá” remete ao cágus, um animal associado a Exu.
As menções ao “povo do Alafin” e ao “ventre de Oyó” resgatam a cidade de Oyó, antigo reino iorubá do qual Xangô foi um dos reis.
A referência à “travessia”, por outro lado, ressignifica o sofrimento dos africanos escravizados, mostrando que a história do povo negro vai além da dor, sendo também uma história de resistência e superação.
Eiêô, kaô kabesilê, babá Obá
Couraça de fogo no orô do velho ajapá
A raça do povo do Alafin
E arde em mim
Rubro ventre de Oyó
Na escuridão, nunca andarei só
Vovó dizia
Sangue de preto é mais forte que a travessia
O enredo da Unidos de Padre Miguel reforça o elo com a Bahia e a ancestralidade. Há referências ao mar e um aceno a Yemanjá, a “rainha dos mares” no candomblé.
Além disso, o samba também menciona o Ylê da Barroquinha, o antigo Ilê Axé Airá Intilê, que teria sido fundado em Salvador por princesas africanas escravizadas e deu origem à Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha.
Saudade que invade
Foi maré em tempestade
Sopra a ancestralidade no mar, ê Rainha
Preceito é herança sem martírio
Airá guarda Seus filhos no Ylê da Barroquinha
Os últimos versos de Egbé Iyá Nassô exaltam elementos como “o xirê”, a roda de dança para os orixás, e o “adarrum”, batida de tambor usada para chamar os orixás, celebrando a resistência, identidade e celebração do povo afro-brasileiro.
Oxê, a defesa da alma na palma da mão
No Clã de Obatossi
Há bravura de Oxóssi no meu panteão
É d’Oxum o acalanto que guarda o otá
Do velho engenho
Xirê que mantenho no meu caminhar
Toca o adarrum, que meu orixá responde
O samba se encerra com a repetição da exaltação a Iyá Nassô e ao candomblé, reafirmando a força e o orgulho da herança africana.
Agora que você já conhece a análise do samba-enredo da Unidos de Padre Miguel no Carnaval 2025, deixe-se levar pela nostalgia no conteúdo exclusivo com as melhores músicas de Carnaval, com os clássicos mais inesquecíveis da folia!





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