29 de Julho de 2026, às 14:00
Permeado pelo luto, o significado por trás do álbum Memórias Póstumas, do Jão, resgata memórias de infância e suas reflexões sobre a finitude da vida e a permanência do amor.
O novo álbum, influenciado pela morte do pai do artista, Carlos Alberto Balbino, e de seu retorno ao interior em meio ao luto, marca o fim do hiato do cantor, que estava afastado da mídia desde o início de 2025, e o início de uma nova fase musical, mais intimista.

Desvende o significado de Memórias Póstumas, que carrega sonoridade oposta aos projetos anteriores de Jão, referências literárias e temas que, embora nasçam de experiências pessoais, tocam em sentimentos universais.
Lançado em 26 de julho de 2026, Memórias Póstumas é o quinto álbum de estúdio do Jão. O disco conta com 14 faixas inéditas, sem parcerias, todas com composição do próprio artista e de Pedro Tófani, seu diretor criativo e namorado de longa data.
O título do álbum faz referência ao livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, mas vai além da referência literária ao abraçar, também, a arte de dar significado às coisas em meio à dor.
O luto, o amor e o seguir adiante, mesmo após as perdas, são temas centrais de músicas que não tratam de se despedir ou de encontrar cura, mas de viver um dia de cada vez.
O teaser do novo álbum do Jão, divulgado em 23 de julho de 2026, também segue nesse caminho. No vídeo, a morte acontece e a vida continua.
Uma senhora de cabelos brancos personifica a morte, e a dor do luto chega em momentos aleatórios, como um soco que pega de surpresa a pessoa que ficou.
“É engraçado que as coisas mais horríveis do mundo aconteçam em dias comuns. […] O cotidiano é traiçoeiro. Leva sem aviso, depois fica ali, lembrando, lembrando, lembrando.”
Ao perder alguém, não se perde o amor que se sentia por aquela pessoa. E é por isso que a literatura e a arte são tão importantes: “são truques para suprir essa falha substancial da nossa natureza, de não poder romper o laço na hora em que algo parte”.
O teaser se torna ainda mais intimista com imagens reais da infância de Jão ao lado do pai. Na narração, dá voz a todas as coisas que ainda não viveu, mas que escolhe continuar compartilhando com ele através da arte, o único lugar onde pode decidir para onde o amor vai.
“Se a única coisa que resta são as minhas palavras então eu decido, aqui e agora, que é nelas que morará para sempre todo o meu amor.”
O disco começa com Catedral, que ganhou um clipe gravado no MASP sobre dar significado a coisas e acontecimentos, assim como damos significados à arte.
Na faixa, Jão fala sobre a morte do pai, mas também de todas as outras coisas que aconteceram no mesmo momento.
O dia em que meu pai partiu, alguém nasceu
Na hora em que tudo aconteceu
A padaria serviu pães, o hospital fez mães
Alguém me disse adeus
Ao fim da música, fala sobre o ciclo. Hoje, alguém chora na despedida enquanto outros sorriem, mas amanhã pode acontecer o contrário.
Por isso, o importante é dar valor ao hoje, ao agora, e celebrar a vida sem medo.
E quando o Sol banhar a terra
Na manhã depois que nós nos despedimos
Haverá tristeza e choro
E haverá gente sorrindo
Assim são todos os dias
Depende de quem está vivendo
Que sorte, então, a nossa estarmos bem agora, vivos
Em O Amor, enfatiza as contradições do sentimento. Com tom vulnerável, narra a beleza por trás da tristeza, mas não de forma irônica. É uma reflexão honesta sobre como o tempo leva tudo, mas o amor é eterno — mesmo que se vá.
Eu acho horrível e bonito que o amor
Não escolhe pra onde vai
Voz e violão protagonizam Literatura, que abraça a arte como uma defesa para a dor, reescrevendo a realidade cruel e criando um refúgio, nem que seja apenas no papel.
Dispenso a verdade, tão fria e tão crua
A vida é linda, mas prefiro ainda literatura
Eu Sempre Volto traz o ciclo do luto. Com o eu-lírico no feminino, a faixa pode ser interpretada como o ponto de vista da depressão: quando a pessoa acha que está se libertando, ela volta, nova e destemida no meio da madrugada, pronta para te destruir mais uma vez.
Com influência do rock oitentista, Jabuticabeira simboliza as memórias que nem o tempo é capaz de apagar, pois criaram raízes. Quando uma pessoa se for, você pode continuar regando as plantas dela, uma metáfora sobre manter o vínculo vivo.
Ao fim da letra, o trecho Quando tiver seu filho, plante sua jabuticabeira também faz referência a criar raízes afetivas que vão ultrapassar a passagem do tempo, à importância de criar memórias com quem se ama.
Mergulhando no amor romântico, João, única faixa do álbum assinada somente por Pedro Tófani, foi escrita em um bilhete e entregue ao artista, em um acordo não verbal de que nunca mais falariam sobre ela entre si. A música fala por eles.
Ao mesmo tempo em que parece um pedido de término, também soa como uma declaração de amor eterno, com a dualidade do amor novamente batendo à porta de Memórias Póstumas.
Além de dar nome ao álbum, Memórias Póstumas o encerra. Ironicamente, a música foi escrita por Jão em 2024, muito antes da morte do pai. Primeira faixa escrita para o disco, fala sobre como as coisas que importam para ele são tiradas com facilidade.
Após o acontecido, Jão adicionou as risadas de seu pai à música durante a produção, transformando-a em homenagem.
Escrevo à noite, e a luz se apaga
E eu me despeço, então, sem deixar nada
Nada, nada, nada
Encerrado o projeto de quatro elementos — terra (Lobos; 2018), ar (Anti-Herói; 2019), água (Pirata; 2021) e fogo (Super; 2023) —, Memórias Póstumas é oficialmente uma nova era para Jão e sua música.
De volta a Araraquara, no interior de São Paulo, Jão resgata elementos de sua própria infância, quando ouviu o Memórias, Crônicas e Declarações de Amor de Marisa Monte pela primeira vez.
O som da sanfona, a casa da avó no interior, as músicas brasileiras que cresceu ouvindo. Não era a intenção fazer um disco nostálgico, mas fluiu naturalmente.
Além das memórias no interior de São Paulo, o álbum também é, inegavelmente, sobre o interior de Jão. Deixando de lado qualquer grandiosidade e sensualidade que tenha buscado em Super, em Memórias Póstumas o artista abraça suas dores, a finitude da vida e a permanência do amor.
As músicas do Jão, embora muito pessoais, sempre ressoam com o público por tratarem de experiências íntimas, mas não individuais. Confira nossa seleção de frases do Jão, com trechos para compartilhar nas redes sociais!




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