This Is America: uma análise do hit de Childish Gambino

Analisando letras · Por Renata Arruda

9 de Junho de 2020, às 12:00

Uma das canções antirracistas mais importantes dos últimos tempos, a premiada This Is America infelizmente permanece mais atual do que nunca.

Lançada por Childish Gambino em 2018, a faixa aborda questões pertinentes à vivência dos negros nos Estados Unidos.

Capa da música This Is America
Capa da música This Is America / Créditos: Divulgação

Para saber mais sobre essa realidade mostrada pelo artista, e entender como ela se relaciona com o que acontece também no Brasil, fizemos uma detalhada análise de This Is America. Confira!

This Is America: uma análise da canção

Assim como no Brasil, a história da opressão racial nos Estados Unidos é longa.

Mesmo tantos anos após a abolição da escravidão, e com os avanços conquistados pelo Movimento dos Direitos Civis, a discriminação racial está longe de chegar ao fim.

É sobre isso que Childish Gambino trata na letra e, principalmente, no vídeo de This Is America. Vem entender:

Yeah, yeah, go away (Sim, sim, vá embora)

A música começa com um verso repetitivo e quase hipnótico, cantado por um coral gospel — gênero musical criado pelas pessoas negras escravizadas nas plantações de algodão americanas, como uma forma de lidar com os horrores da situação.

Ao dizer vá embora, a letra sugere um tipo de negação, como se o coral estivesse dizendo que não tem nada acontecendo por ali.

De uma perspectiva mais sombria, pode também significar um alerta, pedindo para que a pessoa saia antes que a violência comece.

No vídeo, o cantor aparece com um visual parecido com o do músico Fela Kuti, que chegou a ser preso por criticar o governo militar da Nigéria em suas canções.

É um indicativo de que Gambino também não vai poupar as críticas ao seu país.

We just wanna party (Nós só queremos festejar)
Party just for you (Festejar só pra você)
We just want the money (Nós só queremos o dinheiro)
Money just for you (Dinheiro só pra você)

Aqui as possibilidades de interpretação são várias. Há uma crítica à sociedade focada apenas em ganhos econômicos individuais e bens materiais, em detrimento das questões sociais que afetam pessoas negras.

Além disso, pode também ser entendido como uma crítica à comunidade branca, que só se interessa pela cultura negra como fonte de diversão.

Esta crítica pode ser estendida também à indústria musical e aos artistas do rap, que se preocupam mais com dinheiro e ostentação do que com os problemas do seu país.

I know you wanna party (Sei que você quer festejar)
Party just for me (Festejar só pra mim)
Girl, you got me dancin’ (Garota, você me fez dançar)
Dance and shake the frame (Dance e agite o corpo)

No vídeo, Gambino aparece dançando enquanto um homem calmamente toca o seu violão.

A feição do cantor é curiosa, mas não gratuita: os olhos esbugalhados lembram os do personagem Uncle Ruckus, que odeia sua identidade de homem negro.

This is America (Esta é a América)
Don’t catch you slippin’ up (Não dê mole, cara)
Look what I’m whippin’ up (Olha o que eu tô fazendo)

Em seguida, há uma mudança de tom. Gambino puxa uma arma e atira na cabeça do homem.

Ele faz a pose de Jim Crow, um personagem de viés racista, que representava duas coisas: a inferioridade dos negros em relação aos brancos e os negros que eram usados pelos brancos.

Childish Gambino Jim Crow
Créditos: Divulgação

Jim Crow era tão popular que as leis de segregação racial foram chamadas de Leis Jim Crow.

Vale notar que, depois de atirar no homem, dizendo que esta é a América, Gambino entrega a arma a uma pessoa que a guarda cuidadosamente em um pano vermelho. Enquanto isso, o corpo do homem negro é arrastado pelo chão.

É uma forte crítica do cantor sobre as prioridades nos Estados Unidos: enquanto as armas são tratadas com reverência, a vida e os corpos das pessoas negras são desrespeitados.

This is America (Esta é a América)
Don’t catch you slippin’ up (Não dê mole, cara)
Look at how I’m livin’ now (Veja como tô vivendo agora)
Police be trippin’ now (A polícia tá viajando agora)

Assim, Gambino avisa: não dê mole! Isso significa que homens negros devem ter muito cuidado para não serem pegos saindo da linha, porque na América até um homem inocente pode ser assassinado sem motivo.

Yeah, this is America (Sim, esta é a América)
Guns in my area (word, my area) (Armas na minha quebrada (fala, minha quebrada))
I got the strap (Eu peguei a pistola)
I gotta carry ‘em (Então tenho que carregá-la)

Não fica muito claro o que Gambino quer dizer nesses versos, mas parece um retrato da vivência do negro periférico, que convive com a violência em sua quebrada.

Vale lembrar também que ativistas como Malcolm X e os integrantes do Panteras Negras defendiam que a população negra se armasse, como forma de autodefesa contra a violência policial.

Yeah, yeah, I’ma go into this (Sim, sim, vou entrar nessa)
Yeah, yeah, this is guerilla, woo (Sim, sim, isso é guerrilha, woo)
Yeah, yeah, I’ma go get the bag (Sim, sim, vou pegar a bolsa de grana)
Yeah, yeah, or I’ma get the pad (Sim, sim, ou eu vou comprar a casa)
Yeah, yeah, I’m so cold like, yeah (Sim, sim, eu tenho tantos diamantes tipo, é)
I’m so dope like, yeah (Eu sou tão foda tipo, é)
We gon’ blow like, yeah (straight up, uh) (Vamo fumar tipo, é (fumaça pra cima, uh))

Os versos acima podem ser entendidos como um comentário sobre o contraste entre a superficialidade da cultura pop e os confrontos que acontecem na vida real.

Ao longo do vídeo, o artista é acompanhado por bailarinos que performam danças típicas de países africanos, como Gwara Gwara, África do Sul, Shaku Shaku, Nigéria, Alkayida e Azonto, Gana e outros.

O que chama a atenção é o uniforme: eles lembram as roupas usadas pelos estudantes durante o Levante de Soweto, uma série de protestos que ocorreram na África do Sul em 1976, que exigiam igualdade na educação de negros e brancos.

Levante de Soweto
Levante de Soweto / Créditos: Divulgação

Ooh, tell somebody (Oh, diga a alguém)
You go tell somebody (Vá dizer a alguém)
Grandma told me (Vovó me disse)
Get your money, black man (Conquiste seu dinheiro, homem negro)
Black man (Homem negro)

Devido a um passado de opressão, segregação e discriminação, tornou-se comum nas comunidades negras americanas a crença de que os homens negros deveriam alcançar o sucesso financeiro para que fossem respeitados.

Além disso, a estabilidade financeira também seria uma garantia de menos sofrimento para as famílias negras. A menção à vovó indica justamente que essa crença é algo passado de geração em geração.

No vídeo, Gambino canta e dança este trecho ao lado do coral gospel, até pegar uma metralhadora e matar todos.

A cena é uma referência ao massacre ocorrido em Charleston, em 2015, em que um supremacista branco matou nove pessoas negras em uma das igrejas afro-americanas mais antigas da cidade.

This is America (Esta é a América)
Don’t catch you slippin’ up (Não dê mole, cara)
Look what I’m whippin’ up (slime!) (Olha só o que eu tô fazendo (grana!))
Look how I’m geekin’ out (Olha como eu tô me drogando)
I’m so fitted (Eu sou tão estiloso)
I’m on Gucci (Estou de Gucci)
I’m so pretty (Eu sou tão bonito)
I’m gon’ get it (Eu vou conseguir)
Watch me move (Preste atenção em mim)

Mais uma vez, o cantor mostra o contraste entre a realidade vivida pelos negros nos Estados Unidos e a superficialidade da cultura do consumo: enquanto as rebeliões aumentam no fundo do vídeo, Gambino e os estudantes dançam despreocupadamente. 

Nos versos, ele menciona símbolos de status, o que pode ser entendido como uma declaração de que o dinheiro e o poder corrompem as pessoas, que acabam se preocupando mais com suas próprias imagens do que com a comunidade.

A mensagem que fica é a de que bens materiais e estabilidade financeira individual são distrações que não encerram a violência e a discriminação.

This a celly (Isso aqui é um celular)
That’s a tool (Isso aí é uma arma)
On my Kodak (Gravo tudo com a minha câmera Kodak)
Ooh, know that (Ooh, saiba disso)
Get it? (Entendeu?)
Ooh, work it (21) (Ooh, manda ver (21))

De maneira inteligente, Gambino associa os telefones celulares às armas.

Aqui as interpretações também são abertas: pode-se entender que os celulares hoje funcionam como armas a favor das pessoas negras, uma vez que registram situações de injustiças e crimes contra elas.

Outra interpretação é a de que seria uma referência ao assassinato de Stephon Clark, morto por policiais em seu próprio quintal. Eles alegaram ter confundido o celular de Clark com uma arma. 

Hunnid bands (Notas de cem)
Contraband (Contrabando)
I got the plug on Oaxaca (Eu tenho um traficante em Oaxaca)
They gonna find you like blocka (Eles vão te achar com um tiro)

Aqui é o momento do vídeo no qual um homem encapuzado passa galopando em um cavalo branco, ao lado de uma viatura policial.

Muitas pessoas associaram essa imagem ao Apocalipse 6:8, no qual a figura representa a morte.

Após um silêncio congelante, Gambino acende o que parece ser um baseado. Uma clara referência à política de combate às drogas, que é utilizada como justificativa para criminalizar, encarcerar e matar pessoas negras.

Ooh, tell somebody (Ooh, diga a alguém)
(America, I just checked my following list and) ((América, eu chequei minha lista de seguidores e))
You go tell somebody (Vá dizer a alguém)
(You mothafuckas owe me) ((Vocês me devem, seus filhos da puta))
Grandma told me (Vovó me disse)
Get your money, black man (Conquiste seu dinheiro, homem negro)
Black man (Homem negro)
One, two, three, get down (1, 2, 3, vambora!)

A letra novamente critica à superficialidade da cultura de consumo, dessa vez fazendo uma referência a pessoas que se importam mais com números de seguidores em redes sociais do que com problemas reais da comunidade.

You just a black man in this world (Você é apenas um cara negro neste mundo)
You just a barcode, ayy (Você é apenas um código de barras)
You just a black man in this world (Você é apenas um cara negro neste mundo)
Drivin’ expensive foreigns, ayy (Dirigindo carros importados)

Cantado pelo rapper Young Thug, o trecho final mostra que não importa quanto dinheiro você tenha ou quão bem-sucedido seja: nos Estados Unidos, um homem negro é sempre considerado um cidadão de segunda classe.

You just a big dawg, yeah (Você é apenas um grande cão, sim)
I kenneled him in the backyard (Eu acorrentei ele no quintal)
No, probably ain’t life to a dog (Provavelmente não é vida pra um cachorro)
For a big dog (Pra um cachorro grande)

O letrista chega a se comparar a um cachorro, mostrando a desumanização das pessoas negras.

No clipe, durante este trecho, vemos Gambino correndo aterrorizado, sendo seguido por um grupo de homens.

Essa cena pode ser entendida como a realidade de homens e mulheres negros tendo que correr para salvar suas vidas.

Uma outra interpretação seria a de que ele estaria fugindo do Lugar do Esquecimento, concebido no filme Corra!, do qual Gambino faz parte da trilha sonora.

Segundo o diretor Jordan Peele, o Lugar do Esquecimento representa a marginalização das pessoas negras na América, de onde elas não conseguem sair.

Poder negro!

Enquanto Childish Gambino abordou a questão do racismo do ponto de vista do homem negro, Beyoncé trouxe a discussão para o centro da cultura pop a partir de um viés feminista. 

Vem conferir a nossa análise de Formation e entender tudo sobre a canção!

análise formation beyoncé