A capa do viajante

Celio Taffuri

Vou contar o que aconteceu, isto é pura verdade
De um moço que viajava, gostava da vaidade
Numa véspera de domingo ele chegou numa cidade
Foi no clube dançar baile, aproveitar da mocidade
Encontrou com a mocinha, os dois dançaram à vontade

Antes do galo cantar, regulava onze horas
A moça falou pra ele: Eu preciso ir embora
À noite tá chuviscando, mas a sua capa escora
Você vai junto comigo, os dois saíram pra fora
Saíram de braços dados, na rua contando história

Chegaram lá na avenida, fizeram a separação
Ela foi pra casa dela e ele foi pra pensão
E deixou seu endereço subscrito no cartão
Levou a capa do moço só pra dar demonstração
Que ela já era morta, tava livre da ilusão

No outro dia bem cedo, levantou, foi procurar
A casa do pai da moça, custou muito pra ele achar
Bateu palmas no portão, o véio mandou entrar
E sentou numa cadeira e pegaram conversar
Perguntou da sua filha, o velho pegou chorar

A minha filha caçula se chamava Aparecida
Tá fazendo muito tempo que ela foi falecida
Morreu, foi pro cemitério e já passou pra outra vida
O moço falou pro véio, com a voz meia tremida
Ontem eu estive com ela, passeando lá na avenida

O velho falou pro moço: Você não quer acreditar?
Nóis vamos no cemitério que eu quero lhe mostrar
A sepultura da filha, só pra ver que jeito tá
O moço saiu com ele, foram andando devagar
Chegaram no cemitério, a capa dele tava lá


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