Exibições da letra 18

Eu sou abrigo pro mendigo pela madrugada
E não entendo como, com tanto prédio em volta, ele não tem morada
Sou usada de declaração de amor pra namorada
Eu vivo tão solitária, naufragada nessa calçada

Pro indígena eu sou sagrada
Eu que inspirei o nome da sua pátria amada
Eu nasci tão pequena e posso ficar tão pesada
Mas na sua consciência eu não peso nada (não)

Já fui refúgio para os quilombolas
Sob meus pés ancestrais contavam histórias
Jogavam capoeira de Angola
Do Cacique de Ramos, fui o começo da história

Eu que inspirei Mestre Cartola a fundar uma escola
E quantas vezes fui usada para ser instrumento
Eu sou o corpo do tambor, o bojo da viola
Eu sou a casa do macaco, a roda da carroça
Sou o palco do sabiá quando ele cantarola

Fui do pobre o barraco e o trono pros reis
Fui a flecha e o arco e também fui o barco do português
E, quando o inverno chegou, sucumbi ao machado
Eu que mantive aceso o fogo para esquentar vocês

Foi embaixo de mim que Buda encontrou a luz
Isaac Newton viu a maçã caindo no chão
Mas foi com pedaço de mim que mataram Jesus
A cruz e o cabo do martelo que pregou suas mãos

Sou uma árvore na cidade grande
No meio do mármore, a saudade é grande
Se eu tivesse pernas eu ia para longe
Para onde pudesse ver o horizonte
Com as minhas irmãs, nós somos as guardiãs
Enquanto o mundo se asfalta
Penso se eles vão sentir minha falta amanhã

Antigamente na minha frente isso era tudo verde
Perfurando o concreto vou matando minha sede
Que desconforto, vou crescendo com o tronco torto
Me pergunto o porquê o homem fez tanta parede se sem mim ele já tava morto

Eu sou a razão dele ter ar pelo nariz
E ao invés de serem gentis, cortam minha raiz, bicho porco
Virei latrina do cachorro, socorro
Estou cheia de cicatriz, tatuagens pelo corpo

Fico imóvel respirando a fumaça do automóvel
Sou a mãe do oxigênio, eu mereço o prêmio Nobel
O cupim faz de mim sua casa e me deixa oca
Eu já fui tantas, hoje sou tão poucas

Eu queria ter pernas, também ter bocas
Para fugir para longe das pessoas
E poder falar por nós todas
Vi um poeta escrevendo na folha do papel de um caderno feito das minhas folhas
Uma hora ele parece me escutar e me olha
Parece sentir que tenho sede, então me molha

Vem se refugiar em minhas sombras
Quando o mundo esquentar demais, o que te sobra?
Eu serei sua última escolha
E ele me pede para eu contar a minha história
Escreve no meu tronco uma ressalva

Plante uma árvore, escreva um poema
Assim o mundo se oxigena
Arte salva, ar te salva
E hoje tenho esses dizeres escritos em mim
À deriva na cidade, sou uma poesia concreta
Tem mais de 100 anos que vivo assim
Sou símbolo de resistência que nem os versos desse poeta

Sou uma árvore na cidade grande
No meio do mármore, a saudade é grande
Se eu tivesse pernas eu ia para longe
Para onde pudesse ver o horizonte
Com as minhas irmãs, nós somos as guardiãs
Enquanto o mundo se asfalta
Penso se eles vão sentir minha falta amanhã (hein?)


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