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LetraSignificado

    Um poeta já falou, vendo o homem e seu caminho
    O lar do passarinho é o ar, e não o ninho
    E eu voei... Eu passei um tempo fora, eu passei um tempo longe
    Não importa quanto tempo, não importa onde
    Num lugar mais frio, ou mais quente de repente, onde a gente é esquisita, um lugar diferente
    Outra língua, outra cultura, outra moeda
    É, vida dura mas eu sou duro na queda
    Se me derrubar... Eu me levanto, e fui aos trancos e barrancos, trampo atrás de trampo, trabalhando pra pagar a pensão e superar a tensão do pesadelo da imigração
    Clandestino, imigrante, maltrapilho
    Mais um subdesenvolvido que escolheu o exílio, procurando a sua chance de fazer algum dinheiro, no primeiro mundo com saudade do terceiro
    Família, amigos, meus velhos, meu mano - o meu pequeno mundo em segundo plano
    Eu forcei alguns sorrisos e algumas amizades
    Passei um tempo mal, morrendo de saudade
    Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade
    Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade
    Da beleza poluída, da favela iluminada, do tempero da comida, do som da batucada
    Da cultura, da mistura, da estrutura precária
    Da farofa, do pãozinho e da loucura diária
    Do churrasco de domingo, o rateio e o fiado, a criança ali dormindo, o coroa aposentado
    Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade
    Da mulata oferecida, do pagode malfeito, de torcer na arquibancada pro meu time do peito
    A pelada sagrada com a rapaziada, o sorriso desdentado na rodinha de piada
    Da malandragem, da nossa malícia, da batida de limão, da gelada que delícia!
    Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade
    Do jornal lá na banca, da notícia pra ler, das garotas dos programas da TV
    Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral
    Do calor humano, do fundo de quintal
    Do clima, da rima, da festa feita à toa - típica mania de levar tudo na boa - do contato, do mato, do cheiro e da cor
    E do nosso jeito de fazer amor

    Agora eu sou poeta, vendo o homem a caminhar
    O lar do passarinho é o ninho, e não o ar
    E eu voltei. E eu passei um tempo bem, depois do meu retorno
    Eu e minha gente, coração mais quente, refeição no forno
    Água no feijão, tô na área, bichinho
    Se me derrubar... Eu não tô mais sozinho
    Tô de volta sim senhor
    Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor
    Mas o amor é cego
    Devo admitir, devo e não nego, que aos poucos fui caindo na real, vendo como o Brasa tava em brasa, tava mal
    Vendo a minha terra assim em guerra, o meu país... Não dá, não dá pra ser feliz
    E bate uma revolta, e bate uma deprê
    E bate a frustração, e bate o coração pra não morrer
    Mas bate assim cabreiro
    Bate no escuro, sem esperança no futuro, bate o desespero
    Bate inseguro, no terceiro mundo, se for, com saudade do primeiro
    Os velhos, os filhos, os manos - ninguém aqui em casa tem direito a fazer planos
    Eu forcei alguns sorrisos e lágrimas risonhas
    Passei um tempo mal, morrendo de vergonha
    Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha
    Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha
    Da beleza poluída, da favela iluminada, da falta de comida pra quem não tem nada
    Da postura, da usura, da tortura diária
    Da cela especial, da estrutura carcerária
    A chacina de domingo, o rateio e o fiado, a criança ali pedindo, o coroa acorrentado
    Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha
    Da mulata oferecida, do pagode malfeito
    Morrer na arquibancada pro meu time do peito
    O salário suado que não serve pra nada, o sorriso desdentado na rodinha de piada
    Da malandragem, da nossa milícia, da batida da PM, porrada da polícia
    Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha
    Do jornal lá na banca, da notícia pra ler, das garotas de programa dos programas da TV
    Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral, do sorriso mentiroso na campanha eleitoral
    Do clima de festa, da festa feita à toa - ridícula mania de levar tudo na boa - do contato, do mato, do cheiro da carniça
    E do nosso, jeito de fazer justiça
    Mas eu vou ficar no Brasa porque o Brasa é minha casa, casa do meu coração
    Mas eu vou ficar no Brasa porque o Brasa é minha casa e a minha casa só precisa de uma boa arrumação
    Muita água e sabão
    Ensaboa, meu irmão
    Não se suja não
    Indignação
    Manifestação
    Mais informação
    Conscientização
    Comunicação
    Com toda razão
    Participação
    No voto e na pressão
    Reivindicação
    Reformulação
    Água e sabão na nossa nação
    Água e sabão, tá na nossa mão
    Tô morrendo de paixão, tô morrendo de paixão

    Composição: Gabriel o Pensador / Lenine. Essa informação está errada? Nos avise.

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