Exibições da letra 24

A Cruz da Minha Estância

João Arthur Mayer

Letra

    Era cedo, quase alvorada, no campo ainda em silêncio
    Quando Miguel, homem firme, de coração puro e denso
    Montou no zaino tordilho com a lança e a devoção
    Pra ir lutar por seu povo nas causas da região

    Na porta do galpão velho, ficaram dois corações
    Maria, sua prenda amada, e o filho com seis invernos
    Segurando na bombacha, chorando pelos infernos
    Que não sabiam dizer, mas já doíam nas mãos
    Volto logo, minha flor. Cuida bem do nosso piazito
    Se a guerra me leva o corpo, meu amor segue infinito
    Disse Miguel com bravura, disfarçando o sofrimento
    E partiu sem mais demora, levando o peito sangrento

    Vieram dias de sangue, trincheiras, gritos e fogo
    Miguel virou sombra viva, carne, açoite e desafogo
    Viu amigo tombar sem nome, viu criança virar dor
    Mas seguia sempre firme, embalado pelo amor
    À noite, quando a alma pesa e a saudade se agiganta
    Pensava na sua estância, na prenda e na criança
    E num canto murmurado, entre reza e cicatriz
    Que eu volte vivo ou morto, mas que eles vivam feliz

    Foram anos de silêncio, mas então chegou o fim
    Miguel voltou com a alma em farrapos de capim
    A farda, suja de guerra. O rosto, cheio de vento
    O coração batia torto, mas cheio de sentimento
    Logo vejo meu piazito correndo feito galpão
    E a Maria me esperando com sorriso e chimarrão
    Falava pra si baixinho, cruzando o campo vazio
    Sem saber que atrás do cerro o destino rugia frio

    Chegando na sua estância, viu o mato dominar
    As janelas escancaradas, o galpão a desabar
    O cusco não veio ao galope, só uivou desconsolado
    E o peito do guasca velho gelou sem ser tocado
    Saiu da sombra um vizinho, homem antigo da lida
    Com chapéu sobre o peito e a boca já dolorida
    Miguel, meu irmão de campo, que dor me cabe dizer
    Não sei como contar, mas preciso te dizer
    Cadê a Maria? Cadê o meu filho, meu irmão?
    Vieram uns homens ruins, num final de solidão
    Queriam vingança antiga, dessas de sangue e poder
    E mataram tua família, pra ti não mais viver

    Miguel caiu de joelhos, com as mãos cravando o chão
    E um grito saiu da garganta que acordou todo o rincão
    Por que, meu Deus? Me deixaste? Por que não levei comigo
    A morte que era só minha?! Não, não era pro meu filho!
    O padre veio correndo, trazendo cruz e oração
    Miguel, confia em Deus. Tua dor tem salvação
    Mas o guasca, em olhos secos, murmurou de coração
    Deus me tirou da guerra, pra morrer aqui, em vão

    Visitou os dois amores no túmulo à beira da tapera
    E ficou ali parado, como cruz de primavera
    Falava com o túmulo em voz mansa, quase canto
    Maria, meu anjo doce, piazito, meu encanto
    Agora sou só lembrança do que um dia fui inteiro
    Nem homem, nem mais guerreiro
    Só um casco sem cavalo só um poste no ponteiro

    Com o tempo, a vila notou que Miguel já não falava
    Só olhava o mesmo campo, onde a saudade cavava
    E numa noite serena, sob a lua sem calor
    Acharam Miguel caído, junto à cruz do seu amor

    Hoje quem passa no campo sente o vento diferente
    Há um silêncio que se arrasta, há uma dor persistente
    É Miguel, ainda em luto, junto à terra que lhe fere
    Esperando o reencontro com aqueles que mais quer
    E no alto de uma cruz torta, feita à mão por emoção
    Há um lenço amarrado ao tempo, e um verso em oração

    Quem volta do inferno vivo
    Morre em casa, lentamente
    E quem ama além da carne
    Carrega o amor pra frente


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