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Siameses

João Bosco

“Siameses”: casamento colado por rancor e indiferença

Em “Siameses”, João Bosco e Aldir Blanc trocam a imagem romântica da pérola pela sua origem real: irritação e atrito que mantêm o casal colado. O casamento vira “comunhão de males”, em que o brilho (“fulgor”) nasce do ódio decantado: “rancores siameses”, “infelizes pra sempre”. A metáfora da ostra e da concha resume o vínculo: ela “gera a pedra” no desgaste contínuo, ele “estreita a velha concha”, como quem guarda o ressentimento como se fosse valor. O que sustenta a união é a co-dependência entre rancor e frieza, explicitada em “amas em mim a cruel indiferença”. É o tipo de retrato conjugal tenso que Aldir, letrista atento às zonas sombrias do afeto, constrói com frieza quase clínica.

A pequena narrativa aparece no espelhamento entre “ele” e “ela”: as falas se trocam e repetem, fechando o ciclo do casal. A letra contrapõe acaso e destino, preservação e ruína: “Tu és meu acaso e por acaso eu sou tua sina” / “Somos sorte e azar” / “Tu és minha relíquia, eu sou tua ruína”. O encontro imprevisto vira aprisionamento, a relíquia convive com a destruição, e o elo se mantém pela proximidade tensa — feita de maldade, doença simbólica, indiferença. Esse brilho sombrio ajuda a explicar por que a canção, já interpretada por Leny Andrade e Emílio Santiago, soa universal: fala de um amor inseparável justamente por estar atado ao próprio rancor.

Composição: Aldir Blanc, Joao Bosco, Pink Floyd, David Gilmour. Essa informação está errada? Nos avise.

O significado desta letra foi gerado automaticamente.


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