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Estrela da Manhã

José Niza

Letra

    Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
    vindo de qualquer pai,
    acorda e vai.
    Vai.
    Como se cumprisse um dever.

    Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
    nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
    E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
    de quantos desejos ficaram antes por desejar.

    Abre os olhos e vai.

    Vai descobrir as velas dos moinhos
    e as rodas que os eixos movem,
    o tear que tece o linho,
    a espuma roxa dos vinhos,
    incêndio na face jovem.

    Cego, vê, de olhos abertos.
    Sozinho, a multidão vai com ele.
    Bagas de instintos despertos
    ressuma-lhe à flor da pele.

    Vai, belo monstro.
    Arranca
    as florestas com os teus dentes.
    Imprime na areia branca
    teus voluntariosos pés incandescentes.

    Vai

    Segue o teu meridiano, esse,
    o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
    o plano de barro que nunca endurece,
    onde a memória da espécie
    grava os sonos imortais.

    Vai

    Lábios húmidos do amor da manhã,
    polpas de cereja.
    Desdobra-te e beija
    em ti mesmo a carne sã.

    Vai

    À tua cega passagem
    a convulsão da folhagem
    diz aos ecos
    «tem que ser».

    O mar que rola e se agita,
    toda a música infinita,
    tudo grita
    «tem que ser».

    Cerra os dentes, alma aflita.
    Tudo grita
    «Tem que ser».


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