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Eu, Homem Imperfeito

Marcelo Paz Bezerra

Letra

    Eu, homem imperfeito
    Caminho entre gigantes

    Nunca encontrei alguém que se declarasse fraco
    Todos os rostos que cruzam o meu caminho ostentam glórias invisíveis
    Grandes feitos que ecoam sem testemunhas
    Histórias de coragem que ninguém presenciou
    Vitórias proclamadas por vozes que nunca tremem
    E eu, que tropeço nos meus próprios passos
    Que às vezes vacilo diante da palavra certa
    Que duvido de mim mais do que deveria
    Vejo-me cercado de heróis inabaláveis

    Eu, que tantas vezes estive à margem
    Que tantas vezes fui engolido pelo silêncio
    Que já temi a luz por medo de que ela mostrasse minhas falhas
    Que tantas vezes me vesti de sombras para não ser notado
    Pergunto-me se sou o único que carrega cicatrizes que ardem

    Quantos já vacilaram e admitiram sua queda?
    Quantos já erraram sem se esconder atrás de desculpas brilhantes?
    Quantos já sentiram o peso do fracasso sem transformá-lo em lenda?
    Não vejo mãos erguidas, não ouço confissões
    O mundo inteiro parece ter nascido certo
    Ter caminhado reto
    Ter conquistado sem tropeçar

    E eu, que já me calei quando devia ter falado
    Que já falei quando o silêncio era ouro
    Que já temi ser julgado e, por isso, não ousei
    Que já deixei passar oportunidades por puro receio
    Olho ao redor e só vejo príncipes
    Figuras de mármore impenetrável
    Inimigos do erro
    Imortais diante da dúvida

    E, no entanto, quando as portas se fecham
    Quando os olhos do mundo não os vigiam
    Será que suas armaduras se desfazem?
    Será que suas mãos tremem?
    Será que os reis deste mundo não passam de homens nus?

    Caminho entre gigantes de papel
    Entre estátuas de cera que brilham sob a luz mas derretem ao calor
    Entre vozes que se erguem seguras, mas que ecoam vazias
    E eu, frágil como sou
    Imperfectível, falível
    Carrego ao menos a certeza de que sou feito de carne

    Quantos já se permitiram ser tolos sem fingir que não foram?
    Quantos já admitiram ter medo sem vestir um escudo dourado?
    Quantos já se perderam sem fingir que conheciam o caminho?
    Sinto-me estrangeiro entre aqueles que nunca erram
    Entre aqueles que nunca hesitam
    Entre aqueles que nunca se perdem

    Se nunca tropeçaram, como aprenderam a caminhar?
    Se nunca se perderam, como sabem o que é o norte?
    Se nunca caíram, que valor tem o chão sob seus pés?
    Não há fraqueza nos lábios dos homens que encontro
    Não há dor nos olhos dos que me fitam
    Não há falha em suas histórias
    E eu sou o único a carregar o peso da minha humanidade

    De que vale um mundo sem rachaduras?
    Onde há espaço para a verdadeira força
    Se não há nada a ser superado?
    Se todos são reis, onde estão os súditos?
    Se todos são perfeitos, onde está o humano?
    Se ninguém se envergonha, como sabem que já foram pequenos?

    Ah, como invejo aqueles que não sangram!
    Como invejo aqueles que nunca erraram
    Aqueles que nunca temeram
    Aqueles que nunca hesitaram diante da própria sombra
    Mas será que existem mesmo, ou são apenas reflexos distorcidos
    Ilusões projetadas por um mundo que exige máscaras?

    Eu, que já engoli palavras por medo de errar
    Que já desisti antes da luta começar
    Que já senti a vergonha que arde no peito
    Sei que minha história é feita de tropeços
    E se isso me faz menor diante dos imortais
    Ao menos sei que sou real

    Sou o erro que ensina
    Sou a queda que fortalece
    Sou o silêncio que observa
    Sou a hesitação que amadurece
    Sou a confissão que liberta

    Se é fraqueza ser humano
    Se é tolice ser imperfeito
    Se é absurdo admitir o medo
    Então prefiro ser tolo
    Prefiro ser fraco
    Prefiro ser ridículo

    Porque no fim
    Quando as máscaras caírem
    Quando os heróis se despirem de suas lendas
    Quando os príncipes estiverem sozinhos diante do espelho
    Eles verão o que eu já sei há muito tempo
    Somos todos feitos de carne e falha
    E é justamente isso que nos torna reais


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